Luiz Fernando Garcia mostra como os traumas interferem na carreira
Você já pensou na possibilidade de buscar em seu passado respostas para as questões que enfrenta hoje? Pode ser que a dificuldade para se expressar ou conviver com pessoas mais velhas tenha relação com algum trauma de sua infância ou adolescência. Absurdo? Não, totalmente possível!
O assunto é tema do novo livro de Luiz Fernando Garcia. O Inconsciente na sua Vida Profissional, lançado pela editora Gente, traz questões psíquicas que podem influenciar a qualidade dos resultados obtidos na vida pessoal e profissional de muita gente. Luiz Fernando é administrador e já atuou em diversas empresas. Em 1992, fundou a Render Capacitação e, em 2001, implantou o primeiro Grupo Dirigido de Psicodinâmica em Negócios no Brasil, no qual desenvolve metodologias que visam o desenvolvimento e modificação do comportamento de empresários, executivos e diversos profissionais.
Em seu livro, Luiz Fernando traz à tona a necessidade de as pessoas procurarem saber mais sobre si próprias para que possam melhorar os resultados que obtêm em suas vidas pessoais e profissionais. Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu com exclusividade à Motivação.
O que motivou você a escrever esse livro?
Eu tenho uma grande vivência na área de treinamento e modificação do comportamento, são quase 20 mil horas de aplicação comportamental. À medida que desenvolvia meus trabalhos, alguns participantes davam grandes saltos, enquanto outros entravam em surto psicótico – isso usando a mesma metodologia. Então, comecei a me preocupar com a densidade desse trabalho e fui buscar a compreensão psicanalítica. Assim, há nove anos, estudo e participo de grupos de psicanálise. Com isso, percebi que os dirigentes e líderes das pequenas e médias empresas não conhecem a ciência do comportamento. Há uma lacuna muito grande no mundo corporativo e, por isso, comecei a montar grupos com os gerentes para discutir assuntos comportamentais com o objetivo de melhorar as relações afetivas dos indivíduos, prosperidade e resultados, além de também diminuir o conflito interno e melhorar a saúde mental e psíquica, ou seja, cuidar da predisposição genética ou criação de alguns transtornos psíquicos no ambiente de negócios.
Qual foi o momento em que você percebeu o quanto traumas e vivências do passado interferem no ambiente corporativo?
Há 11 anos, quando eu trabalhava com um grupo, uma pessoa me chamou para contar as dificuldades financeiras pela qual passava. Durante a conversa, apresentou disfunções psíquicas e percebi que o caso era sério. No acompanhamento para a internação, ela confessou que estava traindo o marido com o melhor amigo dele. Naquele momento, percebi que, muitas vezes, o problema que se apresenta para a gente é apenas uma fachada, já que há muita coisa guardada no ambiente psíquico da pessoa, que mostra algo completamente diferente do que ela possa imaginar. Abusos, educação mais agressiva e repressão, isso tudo influencia na vida adulta e em como o indivíduo leva seu trabalho no dia-a-dia, se ele busca resultados ou vive se autoboicotando. Com esse e outros exemplos, percebi que se levássemos um pouco do conhecimento psicológico a alguns indivíduos, poderíamos trabalhar melhor com os conflitos e crises no ambiente corporativo.
Como as pessoas podem detectar se problemas que vivenciam hoje são conseqüências de traumas ou experiências do passado?
Essa é uma grande dificuldade. Quanto mais estratégias de autoconhecimento as pessoas buscarem, mais fácil será. Cursos e leituras que buscam reciclagem e compreensão do próprio padrão de comportamento ajudam. Você, sozinho, pode descobrir suas dificuldades dependendo do tipo de tema em que está se aprofundando. Também existem deficiências que só poderão ser percebidas com a ajuda de processos terapêuticos. A partir disso, será possível trabalhar essas questões com os profissionais adequados. Então, por um lado, pode-se compreender muitas coisas sozinho, desde que se busque essa compreensão através do autoconhecimento. No entanto, algumas descobertas só serão possíveis através de mecanismos de interlocução – seja um diálogo com amigo, psicoterapeuta, tipo de terapia ou terapeuta.
Por que as pessoas têm tanta dificuldade para se conhecerem e reconhecerem suas fraquezas e traumas?
Existem diversas maneiras de entender essa dificuldade, mas vou apresentar três possibilidades. 1. O Comportamentalismo Aplicado, uma área científica dentro da psicologia, diz que possuímos medo de perder o controle, ser preterido e humilhado, além do medo da perda do estatu quo, o medo da morte. Esses temores protegem o indivíduo para não entrar em um ambiente de muita insegurança.
2. Também existe a abordagem da psicanálise, que fala que o indivíduo precisa ter seus mecanismos de defesa para suportar algumas frustrações e se defender delas para sobreviver. É a negação, idealização e a capacidade de projetar no outro algumas dificuldades internas. Isso protege a pessoa de detectar que tem algum problema em função de traumas do passado.
3. Podemos analisar também a questão do narcisismo. Se algo não dá certo ou recebemos uma crítica negativa, precisamos manter a auto-estima. Dentro desse narcisismo, existem traços disfuncionais. O indivíduo que é muito narcisista não suporta a dor de ter errado e a única forma de se defender é manter sua postura narcisista, terceirizando a culpa.
Com a análise dessas três abordagens, percebemos que as pessoas se protegem para não detectar suas fraquezas. No entanto, paradoxalmente, ao reconhecê-las, ficamos mais fortes, mas ainda temos muito medo de mexer no passado, identificar as feridas e se conhecer de verdade.
Como evitar esse conhecimento pode prejudicar a carreira de um indivíduo?
Prejudica muito, mas principalmente em três questões. Primeiro, as pessoas não conseguem se entregar para relacionamentos duradouros, com vínculo e troca. Segundo, a médio e longo prazos podem destruir relações com fornecedores, clientes, colegas e líderes, porque não têm um vínculo afetivo verdadeiro. A prosperidade também é afetada, ou seja, o indivíduo não consegue evoluir – abre vários negócios e quebra, entra e sai de diversos empregos. Outro ponto é a saúde mental. O nível de conflito interno aumenta, ocasionando oscilação na motivação da pessoa, fazendo com que ela desenvolva características compulsivas, como: vícios, dificuldade de trabalhar com afinco, depressão e síndrome do pânico – tudo isso acaba levando ao autoboicote.
Você pode citar um exemplo de alguém que mudou completamente sua vida depois de reconhecer suas fraquezas e traumas?
Não posso falar de casos verdadeiros, mas contar as histórias relatadas no livro – em que juntei a experiência de várias pessoas e criei personagens comuns. Entre elas, está a de uma mulher que perdeu a mãe, uma jovem e bem-sucedida executiva, vítima de um aneurisma. A filha a acompanhava durante o trabalho, pois esse era o único momento em que recebia atenção. Depois que a mãe morreu, a menina cresceu e também se tornou uma grande executiva. No entanto, tinha dificuldade para lidar com figuras representativas mais velhas. Ela sempre liderava indivíduos muito jovens, o que gerou uma certa imaturidade em sua equipe e levou a perda de um grande cliente. Depois de analisar esse caso, percebemos que o problema estava na perda abrupta de uma mãe que morreu jovem, ou seja, a mulher não conseguia reconhecer autoridade em pessoas mais maduras. Então, fizemos um trabalho de re-significação para que ela se reorganizasse internamente.
Para saber mais:
Livro: O Inconsciente na sua Vida Profissional
Autor: Luiz Fernando Garcia
Editora: Gente
Visite o site: www.rendercapacitacao.com.br


