Maratona ou uma fábula gerencial

Com certeza você conhece a história da Maratona, como essa longa corrida se iniciou. Volta e meia as revistas e programas de televisão repetem a história da batalha entre os gregos e os persas na localidade de Maratona. O que poucos percebem é que essa história é uma aula sobre como não gerenciar. Com certeza você conhece a história da Maratona, como essa longa corrida se iniciou. Volta e meia as revistas e programas de televisão repetem a história da batalha entre os gregos e os persas na localidade de Maratona. O que poucos percebem é que essa história é uma aula sobre como não gerenciar. Acompanhe:

A batalha estava indo mal. O General Milcíades via o exército persa atacar sem parar seus soldados. A cidade de Maratona estava prestes a se tornar domínio dos concorrentes, quero dizer, dos inimigos. Era hora de pedir reforços. O general chamou, então, um de seus mais leais soldados.

– Fidípedes, chamei você aqui por que quero dizer que o exército está a par de suas realizações.
– Obrigado, meu general.
– Esse relatório de desempenho que recebi de seu superior é impressionante. Após analisá-lo, decidi que só você pode cumprir a missão de ir até Atenas e trazer reforços.
– Irei imediatamente, general. Qual cavalo está disponível?
– Cavalo? Mas que cavalo, Fidípedes? Você não sabe que o exército grego está em regime de contenção de despesas? Todos os recursos devem ser utilizados para enfrentar os desafios da globalização, ou seja, de dominarmos o mundo todo. Basta olhar para fora desta tenda e ver como nada pode ser desperdiçado. Além disso, você tem um talento incrível para correr, e faz parte da minha função, como gerente, quero dizer, general dessa divisão, extrair o melhor de cada funcionário, ou melhor, soldado. Agora, se você não puder cumprir a tarefa, e rápido, tudo bem. Lógico que há sempre o perigo de você ser cortado.

Parênteses. “Ser cortado”, na época, não significava ser despedido. Seu sentido era bem mais literal. Para que você acha que serviam todas aquelas espadas que eles carregavam? Fecha parênteses.

Fidípedes, que não era bobo nem nada, agradeceu a confiança depositada nele pela grande família que era o exército grego, e partiu correndo para Atenas, distante 40 quilômetros do campo de batalha. E correu por uma estrada que não era exatamente asfaltada. E nosso herói não dispunha de tênis com amortecedor de impacto, nem bebidas isotônicas, nem aquele chuveirinho que colocam no meio das provas de longa distância para refrescar os corredores. Mesmo assim, ele cumpriu sua missão, e chegou ao quartel de Atenas rapidinho. Passou o pedido do general Milcíades, e aguardou um bônus por seu esforço: água, comida e uma cama, não necessariamente nessa ordem. Porém, não teve muito tempo para aproveitar.

– Vamos lá, Fidípedes, temos 10 mil soldados prontos para ir até Maratona. Levante dessa cama e junte-se à tropa.
– Mas eu achei que poderia descansar um pouco.
– Descansar, Fidípedes? Onde está seu espírito de equipe? Se você não sabe, o exército grego favorece o teamwork. Todos juntos em busca de um objetivo. Se o pessoal ver um soldado descansando, à toa, isso pode contaminar o ambiente e desmotivar todo mundo. Você não quer isso, quer?

Fidípedes suspirou, disse que não, longe dele prejudicar a empresa, quer dizer, o exército, pegou um escudo, capacete, lança e mais alguns pesos extras e se pôs a marchar, junto com outros 9.999 soldados, os 40 quilômetros de volta até a cidade de Maratona. Bem, a soldadarada chegou e pôs-se a lutar com o inimigo. Fidípedes, lógico, juntou-se à linha de frente, afinal não queria ser acusado de ser relapso e atrasar o cronograma de devastação de toda a tropa.

Após a batalha, havia 6.500 soldados persas mortos. Os poucos que restaram fugiram e deram conta a seus superiores que era impossível conquistar aquele território, que a fidelidade à marca, digo, aos gregos era muito forte, e era melhor tentar um novo approach de vendas, ou melhor, conquista.

E os gregos estavam exultantes. O general Milcíades discursava elogiando o esforço do pessoal, foi uma vitória arrasadora. Agora que conhecemos nosso verdadeiro potencial, podemos aumentar a meta de conquistas e saques para o próximo trimestre.

– E devemos muito disso a você, Fidípedes.
– Que é isso, general…
– Não, toda a Grécia precisa saber dos grandes feitos do General Milcíades e do soldado Fidípedes em Maratona. E precisam saber disso o mais rápido possível. Você vai lá avisá-los, Fidí.
Nosso herói sentiu um frio na barriga, mas agarrou-se a um fio de esperança.
– Tudo bem general. Mas, como a batalha já acabou mesmo, não há nenhum motivo para eu não usar um cavalo, certo?
– Fidípedes, Fidípedes. Você é um excelente corredor e um grande soldado, mas já vi que não entende nada de marketing. Precisamos de todos os cavalos para fazermos um desfile triunfal na praça principal de Maratona, e em Atenas daqui a alguns dias. Você precisa saber que, para o público, digo, o povo, imagem é tudo. Se não pudermos passar uma aura de vitória e poder, daqui a pouco eles podem até querer experimentar, por conta própria, viver sob o domínio persa, vai que eles lavam as togas mesmo mais branco, como dizem na propaganda?

E lá se foi ele de novo, ainda em uma estrada não asfaltada, ainda sem tênis amortecedores de impacto, ainda sem isotônicos e, pior, não tinha nem patrocinador para reclamar da falta de apoio.

Quando chegou a seu destino, só teve forças para dizer uma palavra: “Vencemos!”. E caiu morto.

Dias depois, o general Milcíades se encontrou com os maiorais de Atenas. E, conversa vai, conversa vem, começaram a falar sobre Fidípedes.

O oficial de Atenas elogiou o esforço do soldado de Milcíades. Esforçado, tudo bem, mas não servia para dar os recados corretamente. Não teve competência para informar quantos soldados gregos haviam perecido no campo de batalha, se as fazendas de Maratona haviam sido queimadas, quantas flechas foram gastas e como isso afeta o balanço anual do exército. O general Milcíades concordou:

– Pois é, o senhor sabe como é difícil arranjar bons soldados hoje em dia….

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