Marcos Tonin

Trabalho em excesso poder gerar Burnout

Fábio constantemente fazia hora extra e ainda levava trabalho para casa. Para muitas empresas, era o funcionário exemplar, pois estava indiscutivelmente comprometido. O que talvez elas, e você, não sabiam é que ele estava prestes a entrar em estado de Burnout, resultado do esforço mental repetitivo.

Como o próprio nome já sugere, Burnout reflete um estado de combustão emocional em que o indivíduo se despersonaliza, evidencia sinais de depressão, ansiedade e até síndrome do pânico. A doença, que é relativamente nova, foi diagnosticada pelo psiquiatra inglês Herbert Freudenberg, em 1974, em profissionais que trabalhavam na recuperação de dependentes químicos.

Se antes Fábio era aplicado e sorridente, agora, com Burnout, ele vive de atestado médico e já não sorri mais. Está com “esgotamento emocional”, segundo o consultor Marcos Tonin, diretor da Apoema Inteligência em Pessoas. O profissional é certificado internacionalmente em coaching integrado e especializado nas áreas de liderança, gestão, comunicação, Customer Relationship Management (CRM), endomarketing, criatividade e time.

Sem medo de generalizar, Tonin afirma que o Burnout é uma síndrome eminentemente ocupacional e garante: problema que se inicia na organização deve ser diagnosticado e trabalhado ali mesmo. Confira a entrevista exclusiva com o consultor e descubra como você pode evitar esse sofrimento.

Por que o Burnout ocorre?
O processo do Burnout surge do esforço repetitivo. Não tem nada a ver com Lesão por Esforço Repetitivo (LER), é mais uma atividade que exige um grande esforço do profissional, mas sem resultado. É aquela sensação de estar patinando, em que você faz, faz e parece que aquilo não rende. Os primeiros indícios do Burnout foram identificados em profissionais de saúde que trabalhavam com pessoas em fase terminal. Esses médicos, apesar de saberem do quadro do paciente, continuavam dando remédio, fazendo esforços. Essas pessoas acabavam morrendo e o que acontecia era um dos primeiros processos da síndrome: o esgotamento emocional.

De que maneira diagnosticar o problema?
As empresas falam que já fazem laboral e alongamento, mas falta ver como está a saúde mental dos funcionários. Começamos a observar alguns índices, como: afastamentos, absenteísmos e consultas médicas. Há companhias em que 40% dos colaboradores sofrem de dor de cabeça. Isso não é mera coincidência. Por ser uma síndrome, o Burnout ainda é muito confundido com tristeza, síndrome do pânico, estresse e ansiedade. O esgotamento emocional vem quando o profissional começa a entrar em conflito com seus valores pessoais e os da empresa. Para avaliar o Burnout, procurar especialistas de saúde, como um psiquiatra ou psicólogo, é o mais recomendado. Existe um teste que é feito para avaliar em que grau da síndrome a pessoa está.

Quais perguntas são feitas em um teste como esse?
São 21 perguntas em média, e considera-se a última semana da pessoa ou os últimos 15 dias. São feitas perguntas, como: “Você tem se sentido triste?” e “Tem dores de estômago ou na nuca?”. Ele faz uma triagem para mapear como o indivíduo está. Quando existem índices de esgotamento emocional e despersonalização muito altos, normalmente o grau de envolvimento do profissional com o trabalho também tende a estar muito elevado. É aquela pessoa que, se precisa sair às 18 horas, sairá às 20 horas, chegará mais cedo no dia seguinte e, no domingo, na hora em que a moça da TV falar boa-noite, começará a ter azia, gastrite, insônia, porque sabe que na próxima manhã começará tudo de novo. O Burnout tem intensidades diferentes, mas o fato é que o trabalho começa a atrapalhar na vida pessoal.

O que ocorre após o esgotamento emocional?
A pessoa entra em um processo de despersonalização, por exemplo: nas equipes de trabalho, sempre há aquele indivíduo que é o mais falante, conta histórias e piadas e, de repente, ele muda, fica mais quieto, não participa tanto, começa a reclamar do trabalho. Como o próprio nome da síndrome já sugere, a pessoa começa a entrar em uma combustão de dentro para fora e se anula. Ela pensa: “Eu faço tanto, e não tenho resultado. Então, para que vou fazer mais?”. Ela começa a achar que o mundo é injusto, que as coisas não são mais da forma como ela acredita. Embora seja uma síndrome ocupacional, outras áreas da vida podem influenciá-la?
Podem. Existem os fatores de propensão e risco. Pessoas que são casadas, que têm uma religião, independentemente de qual seja, que praticam algum tipo de atividade física ou que estão envolvidas com outros indivíduos tendem a estar mais protegidas da síndrome. Para quem é casado, fica a sensação de que não está mais sozinho, alguém depende dele, então o nível de flexibilidade que ele possui é maior que o das outras pessoas. A religião também ajuda, porque se tem a sensação de que alguém olha por ele, não importa se é Deus ou Buda.

Agora, quem é solteiro, não pratica esporte nem está dentro de algum ciclo fora do trabalho fuma ou bebe tem riscos que elevam a possibilidade da síndrome. Não é o ato de fumar, mas o fato de isso estar geralmente ligado à bebida. Normalmente, isso acontece em ambientes frequentados por badaladores, que bebem e não têm responsabilidade de pensar que irão dirigir depois, por exemplo. É como se as coisas não tivessem muito limite, como se tudo fosse intenso demais. E o que acontece? A pessoa chega no ambiente de trabalho e a coisa já não é tão bacana como em um barzinho, porque na empresa existe um plano de carreira, mas faz cinco ou seis anos que ela está na mesma função. Se ela bebe, começa a beber muito mais. Um processo de Burnout pode acarretar o alcoolismo ou o uso de entorpecentes, e isso acontece muito.

A crise econômica que estamos vivendo pode intensificar os casos de Burnout?
O que está acontecendo muito desde setembro, quando a crise estourou e iniciaram-se as demissões, é que diversas pessoas estão acumulando funções. O gerente-financeiro, por exemplo, agora também é gerente do recursos humanos. Nesse caso, há forte índice de Burnout, porque essa é uma área que ele ainda não domina, a cobrança é muito alta e o resultado não aparecerá. É o cenário que parece perfeito, tem muita hora extra, a pessoa quer se esforçar para entender e a coisa sai do controle. Sabe aquela sensação de chegar ao fim do dia e parecer que você não trabalhou, só apagou incêndio? O funcionário entra em conflito com os valores pessoais.

Quais os problemas enfrentados por empresas que têm profissionais em situação de Burnout?
Acidentes de trabalho, muitas faltas, descomprometimento, retrabalho, podem ter problemas com o cliente final, pois as coisas estão sendo feitas de qualquer jeito e, normalmente, quem sente isso é o próprio consumidor – na falta ou qualidade do atendimento, etc. A imagem da empresa pode ficar comprometida.

Como tratar o Burnout?
Alguns casos precisam ser direcionados para profissionais de saúde. Mas é possível fazer o desenvolvimento de competências dentro da área de trabalho, mapear o que a empresa quer do indivíduo naquela função. Ver, dentro desse 100% que a companhia espera do profissional, quanto ele já possui e desenvolver o restante. Deve-se fazer coaching, focando o desenvolvimento de competências e alinhamento à visão, missão e valores da empresa. Deve-se também fazer a pessoa se questionar: “Do que não abro mão na vida?”, para ver se a realidade no trabalho não está entrando em choque. É um acompanhamento quase semanal, que dura aproximadamente de 10 a 12 encontros realizados, em média, a cada 15 dias. Em seis meses, já apresenta bons resultados, mas a empresa precisa fazer a pesquisa de clima, uma avaliação do momento. Muitas vezes, não é o coaching que trará resultados, há companhias que investem em meditação, por exemplo.

Para saber mais: Visite o site: www.apoema.com

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