Muito mais do que dinheiro de plástico

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Qualquer um que trabalhe com vendas sabe que a inadimplência é o grande fantasma que passou a rondar a economia no Brasil pós-Plano Real. Segundo estudos, o surgimento desse fenômeno deve-se ao aumento no consumo interno e, sobretudo, à conseqüente elevação no número de transações financiadas, passando pela institucionalização do cheque pré-datado nas vendas a prazo, a liberação do leasing para pessoa física, a ampliação dos prazos de financiamentos para bens duráveis e o financiamento de longo prazo ao consumidor com correção cambial.

Cientes desse processo, os comerciantes passaram a procurar alternativas mais seguras para seus negócios, encontrando no mercado de cartões de crédito uma espécie de “tábua da salvação”. Por sua vez, percebendo a recente onda de aceitação, as empresas do setor saíram em busca de novos clientes, indivíduos recém-descobertos, até então “excluídos”, que começaram a ser percebidos e estratificados em faixas a partir de cinco salários mínimos, compondo um verdadeiro filão para concessão de crédito no varejo.

Esse target representou uma primeira linha de expansão, estimada em mais de 15 milhões de pessoas no Brasil, apresentando a clara vantagem de ser uma via muito receptiva, em que o cartão representa ainda a novidade almejada, uma ferramenta de acesso ao universo de consumo até então inacessível, bem ao contrário do ultraconcorrido segmento – estimado entre 1 e 1,5 milhão de pessoas – acima de 20 salários mínimos, que já tem 3, 4 ou até 5 cartões e está avesso a novas propostas. Aliás, os especialistas vão mais além, dizendo que o potencial de crescimento do mercado é enorme, uma vez que 85% da população economicamente ativa, acima de 16 anos de idade, ainda não possui cartão de crédito.

Números

Resultado: o setor de cartões de crédito registrou um crescimento de 29,2% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O faturamento no trimestre superou a casa dos R$ 10,7 bilhões, representados pelas 168 milhões de transações efetuadas no período um incremento de 31% sobre o mesmo período do ano passado. O expressivo aumento de 35,2% no número de cartões em uso no País – um salto de 17,8 milhões no primeiro trimestre de 1999 para 24 milhões nos primeiros três meses deste ano – também é verificado no Indicador Brasileiro do Mercado de Cartões de Crédito, da Credicard S/A, divulgado no início de maio, em São Paulo.

O estudo também aponta um grande potencial de aumento de transações ao identificar que os cartões de crédito ainda são usados para pagamentos específicos que, na média, representam apenas 1,7 diferentes ramos de atividade e com baixa freqüência.

Lançamentos

Com tudo isso, era de se esperar certas movimentações, como a que ocorreu no mês de maio, quando o Citibank, o Itaú e o Unibanco, acionistas da Credicard e da Redecard, lançaram sua terceira empresa: a Orbitall, que já incorpora o status de líder de seu segmento, com mais de 50% do mercado de processamento de cartões de crédito. Com investimento inicial de R$ 15 milhões e um faturamento de R$ 600 milhões, trata-se de uma empresa formada pela união de todas as áreas de serviços e processamento da Credicard S.A., que se transformaram em uma empresa independente, com a experiência e know-how de 30 anos, toda capacidade produtiva do parque tecnológico e operacional e todo seu capital intelectual.

Para os acionistas, a identificação de um mercado cada vez mais exigente por soluções inovadoras e suficientemente flexíveis para atender as necessidades específicas de cada cliente, foi o motivo primordial do lançamento dessa nova empresa. Assim, a Orbitall poderá garantir foco no negócio de seus clientes. Na verdade, a solidez dos acionistas da Orbitall irá garantir investimentos na ordem de R$ 70 milhões em tecnologia de ponta, maquinários, softwares, sistemas atualizados e, principalmente, capital intelectual.

A Orbitall já é a maior no Brasil, em dois mercados distintos, com 55% do mercado de processamento de cartões de crédito e 32% do mercado de cartões de débito. A empresa nasce com 5 mil funcionários especializados e treinados, oferecendo, assim, serviços e produtos do mais alto padrão mundial. Assim como a tecnologia utilizada é a mais moderna existente no mercado. Em termos de segurança, a Orbitall garante o sigilo do processamento de informações comerciais de seus clientes por meio da segregação dos processos dessas informações, monitoradas por auditorias internas e externas.

Para se ter uma idéia do tamanho da operação, em 1999 os volumes da empresa foram os seguintes:

? 8 milhões de cartões impressos.

? 12,5 milhões de cartões processados.

? 187 milhões de páginas impressas – entre faturas, cartas e relatórios.

? 70 milhões de faturas.

? Mais de 160 milhões de correspondências enviadas – mais de 3 milhões de cartas por semana.

? 60 milhões de ligações – equivalente a 25 milhões de minutos/mês.

? 280 milhões de transações processadas.

Limites

Mas nem tudo são flores para as administradoras de cartão de crédito. Muitas vezes, discussões na Justiça podem trazer prejuízos. Veja o exemplo: segundo decisão do Juiz Aiston Henrique de Souza, de Brasília, elas não podem cobrar juros acima de 1% ao mês no pagamento de faturas atrasadas por não serem instituições financeiras. Essa decisão foi tomada a favor da usuária Maria do Carmo Peixoto em ação movida por ela contra a Credicard.

É claro que essa decisão, em princípio, só vale para a autora, mas certamente irá abrir um precedente jurisprudencial para que outros usuários entrem com ações semelhantes, contestando os juros de 12% ou mais ao mês cobrados pelas administradoras em faturas atrasadas.

Nesse caso, a Credicard já entrou com recurso e prefere não se manifestar sobre o assunto. Para o presidente-executivo da Abecs (Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), as administradoras não “cobram juros, mas sim taxas pelos serviços prestados”. Mas o fato é que o debate ainda promete discussões bastante acaloradas.

Futuro

O mercado de cartões de crédito no Brasil está completando 30 anos, mas por ter passado por várias etapas, vive ainda um estágio de amadurecimento. Entre os fatores que contribuíram para seu crescimento nos últimos anos estão o fim da exclusividade de bandeiras, o surgimento de programas de benefícios, a ampliação e automação da rede de estabelecimentos, além da já citada oferta de cartões de crédito ao segmento de baixa renda. Isso tudo acabará por viabilizar a aceitação de novos produtos como os cartões de débito.

E a tendência é mundial: no Japão, por exemplo, as atenções estão voltadas para o e-commerce. Um consórcio de empresas está realizando testes utilizando diferentes tipos de moeda eletrônica (e-money). Durante a fase inicial, as empresas selecionarão produtos num site exclusivo e pagarão pelas mercadorias inserindo “smart cards” (cartões inteligentes). O sistema utiliza um terminal capaz de ler os dados de pagamentos contidos nos cartões, sendo cada um compatível com um formato de e-money diferente. Os dados serão enviados para as instituições financeiras e operadoras de cartão de crédito antes de serem revertidos para um formato comum, num centro de apoio.

Assim, embora acredite-se que as novidades não chegarão ao mercado antes de dois anos, valerá a pena esperar, pois as facilidades serão muitas, uma vez que o cliente poderá pagar com cartão de crédito, por débito em conta corrente ou outra forma escolhida.

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