No topo do mundo

No topo do mundo Muitos foram os esportes que pratiquei. De futebol e basquete à natação e canoagem, passando por tae kwon do, esgrima e até pára-quedismo. Mas uma modalidade em especial não ousei exercer: o alpinismo.

Vendo cenas de expedições à Cordilheira do Himalaia, fico imaginando a sensação sublime de auto-realização daqueles que chegam ao cume do Monte Everest, literalmente ao topo do mundo. Tive a oportunidade de assistir ao relato de um jovem montanhista canadense, Jamie Clarke, reproduzido em um filme intitulado No Topo do Mundo, distribuído com exclusividade no Brasil pela Siamar, uma das minhas principais parceiras. Eu gostaria de compartilhar algumas lições que pude extrair dessa experiência:

1. Não há êxito sem preparação ? Um alpinista enfrenta por meses, e até anos, um longo processo de preparação do corpo e da mente. Tudo isso para desfrutar a glória de chegar ao cume e lá permanecer por não mais que dez minutos.

2. Siga suas paixões sem obsessão ? A persistência e a obstinação são ingredientes do sucesso. Quando nos apaixonamos por uma idéia, nutrimos uma capacidade inigualável de envolvimento e comprometimento. Mas a obsessão cega os olhos, subtrai a racionalidade e gera a compulsão que conduz ao conflito e à derrota.

3. Escolhas envolvem lucidez e visão de futuro ? O filme apresenta um momento em que um alpinista encontra-se a apenas uma hora de escalada do topo. Mas se prosseguir não terá tempo (o anoitecer se aproxima) nem forças para voltar. Nesse momento, ele decide retornar, preservando sua vida. Um passo atrás que, com olhos voltados para o futuro, simboliza um avanço e não um retrocesso. Nossas ambições devem estar sempre à altura da nossa capacidade.

4. O foco deve estar no caminho ? Embora exista um objetivo maior, é a soma de cada passo, a transposição de cada adversidade que nos direciona à meta. É o que chamo de ?passos de bebê?. Após engatinhar, a criança descobre que há um novo mundo para ser visto a partir de outra perspectiva. E, entre uma queda e outra, a busca pelo equilíbrio sobre suas pernas é premiada com o cumprimento do objetivo traçado: andar.

5. Reconhecer os erros leva ao aprendizado ? Precisamos ser honestos diante de situações adversas. O apresentador conta que, durante uma expedição, o papel higiênico acabou antes do previsto, tornando-se a fonte de conflitos e discórdias. Na verdade, tratava-se apenas de um subterfúgio, uma forma de mascarar questões maiores que estavam sendo negligenciadas. Temos o hábito de evitar os problemas reais e tornar pessoais temas que precisam ser debatidos em busca de soluções.

6. Ou você enfrenta o medo ou ele vence você ? O maior desafio de um alpinista é o medo. O medo da mudança, da insegurança, das circunstâncias. O medo de tomar uma decisão, de dar um passo adiante, causa paralisia e mata o progresso. Você faz o que lhe amedronta e ganha coragem depois; não antes.

7. Um forte propósito é a melhor fonte de motivação que podemos ter ? John, o alpinista que preferiu trilhar o caminho de volta a poucos metros do topo, é vencido pelo cansaço e pela fragilidade do seu corpo. Recostado em uma rocha, com a neve encobrindo suas pernas e minando o restante de suas forças, a morte o espreita quando sua equipe decide fazer uma ligação via satélite para sua casa. O telefonema providencial, conectado ao rádio de comunicação, encontra sua esposa e filhas pequenas que, com palavras de amor, fazem-no relembrar do compromisso assumido de voltar para sua família com vida. São palavras e memórias que, como combustível, incendeiam suas células, possibilitando-lhe retornar à base. O que importa na vida não são as promessas que fazemos, mas as que cumprimos.

8. Nunca escalamos sozinhos ? Esse não é um esporte individual. A vitória é fruto de um trabalho de equipe. Dos guias e estrategistas, dos colegas que acampam nas bases. Da mão que prepara um café para acalentar o frio e das vozes que calam o silêncio da noite com frases de incentivo. Assim como no mundo corporativo, é preciso olhar para baixo e agradecer. Sempre.

Ao término do filme, senti-me transformado. Continuo não tendo o preparo físico nem as vivências de um alpinista, mas em minha mente passo a compreender que também tenho meu próprio topo para escalar. Minhas montanhas são outras. Nem melhores nem piores. Nem mais altas nem mais baixas. São apenas as minhas, aguardando-me por desafiá-las, agora consciente de como fazê-lo.

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