Por trás dos atrasos nos pagamentos dos cartões de crédito e inadimplências no setor bancário, há algo mais profundo do que as elevadas taxas de juros e na política de restrições de crédito do Banco Central: o dinheiro está mudando de mãos.
Está começando a ocorrer uma lenta redistribuição da renda neste País, da classe média para as menos favorecidas, das capitais para o interior, do Sul para o Nordeste.
As formas de ganhar dinheiro irão mudar drasticamente nos próximos dez anos. Antigamente, as únicas formas seguras de ganhar dinheiro eram casar com a filha de um grande industrial, ser amigo de um político ou ministro de obras, ou almejar uma estabilidade de emprego em um bom cargo público.
As regras do jogo estão mudando. Daqui para frente, ganhar dinheiro dependerá mais da produção e menos das influências que se possa ter. A nova geração, jovens entre 20 e 30 anos, foi a primeira a perceber isto. Percebeu que está sozinha neste mundo, que nem a direita e nem a esquerda lhe garante um suporte político, que as faculdades não ensinam o que ela precisa, que é melhor ir arrumando logo um estágio. Os jovens aprenderam cedo que só podem depender de si mesmos.
O dinheiro está mudando de mãos em uma quarta vertente: do meia idade, que parou no tempo, para o recém-formado, com 25 a 30 anos de idade.
Esta geração, mais do que ninguém, está procurando o auto-aprimoramento, lendo livros de administração, abrindo franquias, indo para o interior. Logo estará tomando os mercados e os empregos da geração dos de 40 e 50 anos de idade, que acreditam, como no filme Feitiço do Tempo. Que estão acordando todo dia, no mesmo dia. Depois de quase 15 anos de sono econômico, estamos acordando não em 1981, o último ano que crescemos, mas em 1995. E o mundo mudou.
O brado de guerra era manter o status quo. Corporativismo, formação de cartéis, mercados fechados à concorrência. Lutas por direitos adquiridos são sintomáticas de economias sem crescimento econômico. A regra do jogo de alguns partidos políticos é manter o que se tem, contra inclusive a geração que nascia logo abaixo.
Com o crescimento, já estamos vendo a ruptura do status quo e a troca de dinheiro de uma forma acelerada. O desemprego no ABC não é devido à globalização ou ao capitalismo selvagem, mas sim aos novos tempos de produtividade crescente e portanto, menos trabalhadores por fábrica. A solução é aumentar o número de fábricas, não o número de empregos. O que está começando a acontecer com os investimentos estrangeiros.
As empresas que se prepararam, em 1993, para o novo ciclo de crescimento, lançando produtos populares e não produtos para a classe média, que entraram no Plano Real com capital de giro positivo capaz de financiar seus clientes, estão hoje rindo sozinhas. Aquelas que esperaram para ver, aconselhadas por famosos economistas e jornalistas, perderam momentaneamente o barco.
Agora, uma boa notícia para quem curte o sonho de montar o seu próprio negócio: ao contrário do que se poderia pensar, está ficando cada vez mais fácil abrir uma empresa e dar certo com ela. Hoje, graças à terceirização, você pode abrir um negócio sem ter um gerente de publicidade, pode ter um exímio contador sem ter que contratá-lo e um atacadista sem precisar ter uma custosa equipe de vendas.
Antigamente, um Thomas Edison brasileiro morreria na praia com seu novo invento, incapaz de montar uma equipe de vendas do tamanho da Souza Cruz ou de uma Gessy Lever para distribuir o seu produto do Oiapoque ao Chui.
Um pequeno empresário de antigamente, além de ser engenheiro, marketeiro e propagandista, precisava entender de finanças, contabilidade e ter Ph.D. em tributação. Agora, basta entender bem o assunto crítico do seu negócio e não os acessórios, embora o Ph.D. em tributação continue imprescindível. Pelo mesmo motivo, talvez sua empresa não chegue a ser uma Votorantim e, certamente, você jamais conseguirá se tornar grande sem abrir o capital da sua empresa aos seus funcionários. Muito menos manter 51% do controle na família.
O centro do poder era dominado preponderantemente por aqueles que possuíam tanto uma bela oratória com habilidades verbais. Erudição impressiona num País onde nem todos sabem ler e escrever. Lentamente, o poder migrará dos verbais para os qualitativos, para aqueles que fazem contas, planejam e constróem o futuro, implantam os sonhos tão bem escritos em crônicas e discursos. Todo país precisa de seus intelectuais e sonhadores, dos que motivam e dão brados para irmos para a frente. Mas as coisas andam mais rápido quando o poder de implantação passa para os fazedores.
Já vemos esta tímida mudança nos yuppies do Banco Garantia, bons de número e não de prosa, que se tornaram os ídolos da nova geração e das novas ambições salariais. Pergunte ao seu filho bom de números onde ele gostaria de trabalhar, e a resposta será Microsoft, Garantia, Pactual ou, melhor ainda, abrir o próprio negócio. A era das idéias e dos sonhos não-realizados acabou. A era dos projetos e das realizações começa a se delinear.
O dinheiro está mudando das mãos dos homens para as mulheres, que ingressam cada vez mais no mercado de trabalho; do branco para o negro, que sempre foi ignorado como consumidor potencial.
Uma coisa é certa. Nada mais será para sempre. As empresas familiares não mais conseguirão passar o controle para os filhos e genros; os engenheiros dificilmente irão ser engenheiros para o resto de suas vidas; o retreinamento ao longo de uma vida será uma necessidade; o seu negócio passará por reengenharia e será reinventado várias vezes ao longo de sua existência.
Em suma preparem-se para ficar ricos ou pobres, rapidamente.
Stephen Kanitz é consultor de empresas, autor de O Brasil Que Dá Certo – O Novo Ciclo de Crescimento – Melhor livro de não-ficção de 1995. E-mail: stephen@kanitz.com.br


