O milagre dos Andes

De repente, a vida os deixou isolados, com frio, sem comida e quase sem esperança. Não desistiram! Uniram-se em torno de um único objetivo: continuarem vivos! De repente, a vida os deixou isolados, com frio, sem comida e quase sem esperança. Não desistiram! Uniram-se em torno de um único objetivo: continuarem vivos!

13 de Outubro de 1972. Quinta-feira. Um avião uruguaio Fairchild da Força Aérea Uruguaia decola do aeroporto de Mendoza rumo ao Chile, levando 45 pessoas, na maioria estudantes e integrantes de um time de rúgbi. Infelizmente, esse vôo seria interrompido por um acidente grave na Cordilheira do Andes, algo que mudaria o destino de todos os passageiros.

Treze morreram na queda da aeronave e outros três na mesma noite do acidente. Em uma situação extrema, vários foram morrendo durante os 72 dias em que lutaram para sobreviver sob temperaturas de 30 graus abaixo de zero, cercados de montanhas de grande altitude e cobertas de neve. Nem sinal de vegetação, animais, água.

Como precisavam sobreviver, trataram de resistir utilizando as escassas reservas alimentares possuíam, esperando pelo resgate. Entretanto, dez dias depois, ouviram pelo rádio que o serviço aéreo uruguaio dava por encerradas as buscas. Quando nada poderia ficar pior, no dia 29 de outubro, o grupo foi surpreendido por uma violenta avalanche, que invadiu a fuselagem do avião. Oito pessoas morreram.

Segundo um dos sobreviventes, Álvaro Mangino: ?O que nos dava esperança era a grande união do grupo. A força que teve o grupo durante todos aqueles dias foi muito forte. Nós demos tudo o que a gente tinha para dar e mais um pouco ainda. Cada um fazia o trabalho que podia fazer. Eu, por exemplo, fui encarregado de fazer água, de preparar comida. Eu tinha quebrado a perna e não podia andar, então era o que eu podia fazer. Talvez essa seja uma das grandes lições que a gente sempre tenta transmitir para as pessoas: às vezes, as coisas não têm o resultado final que esperamos, mas mesmo assim você tem de dar o máximo que puder. Porque de alguma maneira você vai ser beneficiado por isso.?

Desesperados ante a falta de comida e debilitados fisicamente, viram-se obrigados a alimentar-se dos corpos dos companheiros mortos para continuar vivendo. De acordo com Mangino, eles tiveram de pensar e discutir muito antes de tomar aquela atitude. No começo, em era uma prática fechada, para pequenos grupos, até que foi estendida para todos. ?Já estava doendo a fome que sentíamos. E nós tínhamos a proteína ali do nosso lado. Ela poderia, de alguma maneira, nos ajudar a sobreviver?, completa Álvaro. O fato é que uma coisa seria tomar a decisão. E outra coisa bem diferente seria executá-la. Roberto Canessa, que foi o primeiro sobrevivente a cortar um corpo, conta que, num primeiro momento, sua mão tremia, a boca ficava fechada, e a garganta não deixava passar absolutamente nada. É importante frisar que como a situação era limite, todos tinham um compromisso de permitir que caso um deles morresse, seus companheiros poderiam utilizar o corpo para sobreviver.

Finalmente, fartos das baixíssimas temperaturas, das ameaçadoras avalanches, angustiados pela contínua perda dos companheiros e pela lenta espera de um resgate incerto, no dia 12 de dezembro, exatamente dois meses depois do acidente, dois dos sobreviventes, Roberto Canessa e Fernando Parrado, cruzaram as imensas montanhas em direção ao Chile para buscar ajuda. Vale ressaltar que Parrado, então com 18 anos, havia visto a sua mãe morrer, entrou em coma, se recuperou e ainda cuidou de sua irmã, que acabou morrendo em seus braços. Eles vagaram por dez dias até encontrarem um grupo de pessoas. Assim, no dia 22 de dezembro, após terem ficado isolados de tudo durante quase dois meses e meio, o mundo soube que 16 eram os sobreviventes que haviam vencido a morte na Cordilheira dos Andes.

Dia-a-dia

Para entendermos um pouco mais o cotidiano desse heróis das montanhas, Mangino conta que as lideranças foram naturais e diferentes: ?Não teve ninguém que fosse um líder, aquele que decidiu tudo. Teve uma liderança das pessoas que tinham melhor físico, e mais determinação para sair daquela situação. O Parrado, por exemplo, estava determinado a encontrar o seu pai novamente para comunicar a ele que sua mãe e sua irmã haviam morrido no acidente. Em outro grupo, tínhamos alguém como o Canessa, que exerceu uma liderança nas atividades pesadas, como tirar os mortos e os feridos de dentro da fuselagem.

O grupo teve também a liderança dos chamados criativos, que criaram os óculos para que os sobreviventes não perdessem a visão por causa do Sol, desenvolveram uma forma de obter água, transformaram parte da fuselagem em pás e descobriram que podia-se usar travesseiros sob os pés para andar na neve sem afundar. Sem falar nos líderes do bom humor, das conversas dentro do avião, dos líderes espirituais, que davam apoio para os que poderiam estar sofrendo alguma depressão. Isso sem que ninguém tivesse de falar nada. Cada um fazia o papel que tinha sido destinado naquela sociedade em que viviam.

Da mesma forma, essa pequena sociedade tinha regras, muito tão severas quanto naturais, que todos respeitaram. ?Era uma sociedade muito bem formada, muito pura. Não tinha nada além de nossas vidas, e era por aquilo que estávamos brigando. O dinheiro, por exemplo, não valia nada lá. Tínhamos outra moeda. O que tinha valor era a comida, que você podia negociar, e os cigarros. Aquilo era que tinha valor. O dinheiro nós usamos para queimar e nos manter aquecidos?, comenta Álvaro Mangino.

Lições de vida

Embora alguns dos sobreviventes fossem um pouco mais velhos, como José ?Coche? Inciarte, que tinha 24 anos, a maior parte do grupo não passava dos 19 anos. Sem dúvida, aquela foi uma situação traumática, principalmente para pessoas tão jovens e inexperientes, acostumadas ao conforto de uma classe média-alta. ?Éramos acostumados com todos os cuidados, com café na cama, levado pela mãe. Não tínhamos problemas de nenhum tipo. Estávamos relativamente bem, estudando, começando a pensar o que nós iríamos fazer das nossas vidas e, dum momento para outro, num segundo, ficamos no meio de uma montanha, com frio de 10 negativos ou um pouco mais, com neve, num acidente que resultou em amigos mortos. Realmente foi uma coisa difícil de engolir?, relata Álvaro Mangino.

Porém, chega um momento em que não se tem escolha. É fazer ou fazer. O próprio Álvaro havia quebrado a perna e não pode andar durante muito tempo. Ficava se arrastando todos os dias, Mas nunca deixou de fazê-lo. Eles tiveram de assumir responsabilidades e amadurecer rapidamente, refletindo sobre conceitos moldariam suas visões de vida para sempre. ?Se você me pergunta hoje como seria a minha vida se eu não tivesse passado pelo que eu passei, eu não sei te dizer como teria sido. Eu sei dizer como é a minha vida hoje. Veja que de todo mundo tem suas perdas daqui e dali. Mas o que a gente sempre fala entre nós é que a gente sabe viver da melhor forma possível. Somos pessoas que na frente de um problema, a gente sabe administrar, sempre com bom humor, sempre com carinho. Eu acho que sempre pode ficar pior. Então, se você tem um problema pela frente, você tem de administrar aquele problema. Você tem de se ocupar com ele, mas não se preocupar com ele. Esse é o grande ensinamento que a gente teve na vida?, conclui Álvaro.

Numa ótica bastante elaborada daquela experiência, José “Coche” Inciarte comenta que vê uma grande diferença entre o que ocorreu na montanha e a nossa sociedade real, principalmente no mundo das empresas. ?Nós tínhamos um objetivo comum. Nas empresas, muitas pessoas estão interessadas apenas em jogar a seu favor, e para isso, é preciso derrotar os outros. Isso significa que as decisões não são tomadas em equipe. E a verdade é que as decisões em equipe são muito mais construtivas, onde um mais um são muito mais do que dois. Além disso, uma decisão em equipe, através do conhecimento e da criatividade que requer, faz com que a execução das decisões seja feita com muito mais determinação e atitude?, diz Coche.

É muito comum as pessoas pensarem que numa situação de dificuldades extremas como essa o melhor seria dizer ?Ai, meu Deus, não vou agüentar. Prefiro morrer?. Porém, segundo Coche, isso é uma grande mentira, pois sempre dá para seguir um pouco mais. ?O ser humano possui uma reserva formidável de ?poder mais?, de criatividade e determinação. Afinal, as coisas sempre podem ficar pior. No nosso caso, tínhamos uma situação ruim antes de avalanche, e depois acabamos em outra muito pior. Em todo caso, temos um fator comum que motivou nossas decisões: a palavra amor. Havia amor não apenas como sentimento mas presente no nosso comportamento. E esse foi um fator de união ainda maior. Vejam que aqueles que saíram para caminhar, não queriam salvar a si mesmos apenas, mas salvar a todos. Eles caminharam ainda mais rápido porque sabiam que a cada hora de atraso alguém mais poderia morrer. Quando voltaram, perguntaram ?Alguém morreu??. E a resposta ?não? foi uma grande felicidade para eles?, conclui Coche, lapidando mais um exemplo de solidariedade e união que pode servir para produzir um milagre na vida de qualquer pessoa.

Olhos para a matéria:

Olho Álvaro, foto do homem mais novo ? ?Se você tem um problema pela frente, você tem de administrar aquele problema. Você tem de se ocupar com ele, mas não se preocupar com ele? ?Eu devo a minha vida aos meus amigos vivos e aos meus amigos mortos. Eu digo que Deus estava presente e nos ajudava através deles?

Álvaro Mangino e José ?Coche? Inciarte vêm fazendo palestras em diversos países como o México e os Estados Unidos. São representados no Brasil pela empresa Palestrarte – Arte da Comunicação, devendo apresentar-se no país em 2004 com a palestra “Vivos! A Tragédia dos Andes”, dirigida a empresários e estudantes. Informações e contatos: (11) 3501-4513. Homepage: www.palestrarte.com.br

Frase: ?A diferença entre o possível e o impossível reside na determinação de cada pessoa? ? Tommy Lasorda

Para Saber Mais: Acesse o site www.viven.com.uy e conheça todos os detalhes desta história fascinante.

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