Felizmente foi-se o tempo em que quem mandava nas contas familiares era o ?dragão da inflação?. Felizmente foi-se o tempo em que quem mandava nas contas familiares era o ?dragão da inflação?. Naquela época, não tão distante assim, antes do Plano Real, não havia a menor condição de se fazer um orçamento que pudesse prever os gastos de ninguém: nem de empresas nem de famílias, muito menos do governo. Este vivia gastando sempre o que não tinha e o ?Legislativo? vivendo um teatro ridículo que no final de cada ano aprovava um orçamento para o ano que já tinha passado… e nós pagando.
Aliás, continuamos pagando esse ?Legislativo? que procrastina a pauta diária, trabalhando pouco, ou não trabalhando, para poder assistir a festas juninas ou a outros eventos fictícios, de modo a gerar a ?necessidade? de convocações extraordinárias no período de férias legislativas, as quais, por si só, já são uma constante para vários parlamentares gazeteiros…
Estaca zero ? Estamos agora com mais de dez anos do Real, o qual supostamente abateu o monstro. E não há dúvida de que apesar do Fome Zero não ter funcionado até agora, a população, como um todo, está comendo melhor do que no tempo em que tinha de dividir o minguado rancho com o ?dragão?.
Essa condição deve-se hoje à relativa estabilidade dos preços em geral e à oportunidade que as pessoas passaram a ter de pesquisar preços e planejar suas compras sem o estresse dos tempos inflacionários. A memória do povo é curta, mas os bolsos dos que se favoreciam com índices turbinados tornaram o País um dos campeões em concentração de renda e patrimônio.
Passou a ser possível estabelecer metas e estruturar um orçamento doméstico adequado à realidade de cada um, e agora, há algum tempo, até o governo (quem diria?), está trabalhando com um orçamento: antes do fim de cada ano já se prevê o que se pode gastar no próximo. Agora, com esse raro bom exemplo que vem de cima, as famílias passam a ter a obrigação moral, social e econômica de viver dentro do orçamento. Podem e devem escapar de dois grandes vilões, o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, dois sedutores instrumentos de suicídio financeiro.
Aí também vai, porém, um mau exemplo do governo. Poderia muito bem diminuir suas despesas, diminuir a inoperante máquina estatal e parar de contratar militantes, reduzir o número de ministérios superpostos que não sabem o que fazer (muitos criados para atrair o leviano partido do ?Me Dei Bem?), vender o avião importado vaidosamente encomendado (quando, e se, precisar, deveria fretar os das combalidas empresas aéreas nacionais), cancelar a reforma de seu aeroporto, e outros desperdícios mais.
Lado de fora do planalto ? Dentro da nossa casa, uma dívida interna gerada por despesas maiores que as receitas e financiadas por aquelas citadas ?linhas-de-crédito-suicidantes? ou, pior ainda, por ?financeiras-de-beira-de-rua?, podem chegar a limites insuportáveis, tornarem-se impagáveis e o caos se instalará. Será, pois, indispensável gerar um saldo credor (nas contas públicas chamado ? muito mais chique ? superávit primário) capaz de pagar essa dívida interna e, como os juros dessas linhas são exorbitantes e impagáveis, os bancos têm interesse em renegociar com taxas bem menores e com prazos razoáveis. Para os que têm emprego fixo, está na moda hoje a chance de trocar por um empréstimo consignado na folha de pagamento, que custa muito mais barato, pois quem recolhe ao banco é a empresa.
O mais importante é gerar o superávit primário nas contas da família e, para isso, é preciso caprichar na estruturação do orçamento doméstico, levando a sério o cumprimento das metas estabelecidas. Além das despesas financeiras e tarifas bancárias, o outro grande vilão atual pode ser representado pelos telefones fixos e, principalmente, os celulares.
Mais uma vez o Real e suas conseqüências: em função da política de abertura e das privatizações viabilizadas pela estabilidade econômica, as várias empresas de telefonia investiram pesado no setor, criou-se um mercado competitivo, ampliou-se o serviço para todas as camadas sociais e o povo todo teve acesso às comunicações digitais. O troco veio em seguida: a aquisição ficou muito fácil e barata, mas o novo serviço passou a pesar nas contas domésticas, principalmente para as famílias de menor poder aquisitivo, as quais estão gastando o que não podem com as tarifas telefônicas. Coitados dos pobres: seduzidos pelas inacreditáveis ofertas de celulares ?a prazo sem juros?, pagam nas ligações de pré-pagos até 40 vezes mais, se comparados ao velho e ?sem status? orelhão…
Como a receita, num bom ?economês?, é elástica, a despesa telefônica entra pelo orçamento adentro, desviando as verbas de outros importantes itens. Parece até que aprendeu com o governo, que ao aumentar os impostos goza de parte do nosso orçamento, sem pedir licença e sem dar troco em serviços. O celular virou moda, o descontrole é real, mas, pelo menos, diverte e presta serviço.


