O passe de mágica

Era minha primeira oportunidade de emprego, ou melhor, trabalho. Tinha 17 anos e um certo talento para as artes. Era minha primeira oportunidade de emprego, ou melhor, trabalho. Tinha 17 anos e um certo talento para as artes. Cursava Desenho Industrial na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas, logo nos primeiros anos, já manifestava profundo descontentamento com a futura carreira que havia escolhido. Isso, óbvio, era fruto do total desconhecimento que um jovem nessa idade tem sobre suas potencialidades e características.

Sabendo da minha insatisfação, um colega de turma escreveu, em um pedaço de papel de pão, o endereço e telefone de um escritório onde funcionava um jornalzinho de bairro. Essa empresa estava precisando de um ilustrador para fazer histórias em quadrinhos. Meu amigo estava absolutamente convicto de que essa oportunidade poderia abrir novas portas para mim. Ele sabia que meu talento era para o desenho à mão livre e não para o desenho técnico, fundamento básico para um desenhista industrial.

O endereço do escritório era no centro do Rio de Janeiro e o jornal se chamava Espaço Tempo. Liguei para marcar a entrevista e agendei um horário na manhã seguinte. O diretor da empresa se chamava Gontijo e foi muito simpático. Ele demonstrou estar interessado em meu trabalho nesse primeiro contato telefônico. De fato, eu não sabia nada sobre essa empresa, apenas que o tal jornal Espaço Tempo era distribuído gratuitamente, em algum clube da cidade. Guardei aquele papel de pão com todo carinho que um jovem de 17 anos tem pelas coisas que preza: dentro da minha carteira, absolutamente vazia de dinheiro, mas cheia de esperanças.

Depois de marcar a entrevista, saí com os amigos e acabamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, jogando uma partida de futebol em um daqueles campos a céu aberto. O dia estava nublado e não tardou a cair uma forte chuva. A água lavava minha alma como se me preparasse para uma nova vida. Era uma espécie de batismo e a promessa do início de uma nova fase. Jogamos até o cair da noite, e fui para a casa com uma sensação de felicidade como poucas vezes havia sentido.

No dia seguinte, levantei, tomei café e comecei a me preparar para a entrevista. Ansioso, peguei a carteira para ver o endereço e decidir qual ônibus pegar. A carteira ainda estava no bolso do short, encharcado pela chuva e suor do futebol do dia anterior. Peguei-a e tive uma certa dificuldade para tirar o papel de dentro. Ele também estava molhado. Abri-o com cuidado e me deparei com um borrão de tinta absolutamente ilegível! A umidade havia transformado o texto em um hieróglifo indecifrável. Fiquei surpreso, mas não desesperado. Afinal, bastaria ligar para o meu amigo e pedir o endereço novamente. Telefonei imediatamente. A mãe dele atendeu e disse que ele já havia saído para a faculdade. Comecei a ficar um pouco mais preocupado. Liguei para a companhia telefônica e perguntei o endereço do jornal Espaço Tempo. Nada, ninguém sabia ou conhecia o veículo. O nome do diretor era Gontijo, mas não sabia o sobrenome. A razão social da empresa eu também desconhecia.

Arrumei minhas coisas e fui para a faculdade em busca do meu amigo. Cheguei na sala e não entrei. Da porta, mesmo, chamei-o para uma conversa. Expliquei o que aconteceu e pedi que ele me desse o endereço de novo. Com um certo nó na garganta, ouvi ele dizer que aquele papel de pão era a única referência que ele tinha. Entrei em desespero. Sentei no banco do corredor da escola e fiquei observando no relógio da parede os ponteiros se aproximando da hora marcada para a entrevista, aquela que mudaria minha vida e que a água da chuva tinha levado embora.

Refleti sobre tudo e decidi que o melhor caminho seria insistir na carreira de desenhista industrial e desistir da idéia de mudar de profissão. Achei que a felicidade poderia existir, sem estar necessariamente vinculada ao trabalho. Pensei que meu sofrimento duraria só quatro anos e depois, seria diário, apenas das 9 da manhã às 6 da tarde. Que depois desse horário eu poderia viver, fazer o que eu gostava e me realizar.

Decidi que, naquele dia pelo menos, eu me daria o luxo de não assistir às aulas. Conformado, peguei um ônibus de volta para casa. Apesar do ônibus estar praticamente vazio, sentei no último banco, aquele lá atrás que fica antes da roleta, de frente para o cobrador. O trocador me olhava como se sentisse minha tristeza. Eu apreciava a paisagem com olhos distantes.

O ônibus fazia um longo trajeto pela Avenida Brasil, passando por vários bairros. Próximo ao centro da cidade, um dos poucos passageiros levantou para saltar. Ele estava sentado em um dos primeiros bancos, logo após o motorista, e carregava uma pasta semi-aberta. Dessa pasta, sem que ele percebesse, caiu um pedaço de papel dobrado, muito leve, que veio percorrendo o corredor, carregado pelo vento. Esse papel passou pela roleta e parou nos meus pés. Era um pequeno jornal e peguei-o com o intuito de devolver ao dono. Ele desceu no ponto sem que houvesse tempo de avisá-lo. Então, peguei o tal jornal para folhear e dei um grito que ecoou pelo ônibus vazio. O nome do jornal era Espaço Tempo! Lá estava o endereço de que eu tanto precisava.

Ainda dava tempo de ir na entrevista. O ônibus passava próximo do local e eu desci no melhor ponto. Corri e consegui chegar a tempo. É verdade que alguns bons minutos atrasado, mas nada que não fosse perfeitamente aceitável e compreensível.

Fui contratado para fazer uma tira de quadrinhos semanal. O diretor do jornal era o apresentador do antigo Repórter Esso, Gontijo Teodoro. Meses depois, eu já estava em outra empresa maior, alguns anos depois, em um jornal de grande circulação. Hoje sou empresário na área de comunicação e, entre outras coisas, faço dezenas de pequenos jornais, para diversas organizações. Sou completamente realizado profissionalmente. Se eu realmente tivesse seguido a carreira de desenhista industrial, não sei dizer. Mas, com certeza, a história da minha vida seria bem diferente se aquele jornal não tivesse caído nos meus pés como num passe de mágica.

Como isso aconteceu? Não sei explicar. Teria sido coincidência, destino ou alguma ajuda divina? Quem era aquele homem que deixou cair o jornal e desapareceu na rua, um anjo? Deixo para o leitor tirar suas próprias conclusões de acordo com seus credos e convicções. O importante é saber que durante nossas vidas somos colocados constantemente à prova. Aquilo que parece fácil pode se transformar em difícil e, quando menos esperamos, a solução pode aparecer diante dos nossos olhos.

Frase: ?Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia? ? Benjamin Franklin

Para Saber Mais: Extraído e adaptado do livro Trabalho e Vida Pessoal ? 50 Contos Selecionados, coordenado por Carlos Alberto Barbosa (Editora Qualitymark).

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