Não faz sentido, em um país pobre como o Brasil, a inexistência de conhecimentos sobre economia doméstica. Quando eu estudava no ensino médio, freqüentemente questionava-me sobre a real utilidade de muitos dos conceitos ensinados. Às vésperas do vestibular, sentia que aquele imenso conhecimento adquirido estava com seus dias contados em meu banco de dados mental. Afinal, qual seria a utilidade de saber calcular deltas, tirar raízes, desenhar o diagrama de Pauling ou saber de cor a Tabela Periódica? Por que saber classificar corretamente o objeto de uma frase ou descrever uma meiose?
O fato é que tudo aquilo que me irritava profundamente foi fazendo, aos poucos, sentido em minha vida. Talvez eu não saiba mais fazer os cálculos ou descrever detalhadamente alguns fenômenos, mas é inegável que o saldo remanescente de tudo o que aprendi nas boas escolas em que estudei foi uma visão bem mais ampla da vida e dos fenômenos que me cercam, sejam eles físicos, químicos, sociais ou biológicos. Hoje tenho a sensação de que tudo aquilo valeu a pena e, se fosse possível voltar no tempo, estudaria tudo novamente e com mais afinco. A escola preparou-me para a vida e formou a base para eu fazer escolhas no meu dia-a-dia.
Discorda? Pense no que aconteceria se, neste momento, você sentisse uma dor aguda no lado esquerdo do peito e um certo formigamento no braço. Como interpretaria esse fenômeno? Provavelmente correria ao ambulatório de sua empresa ou ligaria para marcar um atendimento de urgência com um cardiologista. Afinal, enfiaram-nos ?goela abaixo?, nos cursos de ciências e biologia da escola, que no lado esquerdo do peito está o coração, órgão vital para nossa sobrevivência, o qual dá sinais bem conhecidos quando algo de ruim acontece. Nossa mente traduz conhecimentos técnicos em reações quase que instintivas, aplicando a física ao dirigir, a biologia na cozinha e a gramática nas comunicações de negócios.
É exatamente isso que falta ao brasileiro quando se trata de suas finanças pessoais. Apesar de sabermos resolver equações de segundo grau, ninguém nos ensinou como funcionam os bancos, o que são juros, como usá-los a nosso favor e como evitar as perigosas dívidas. Mesmo após concluir o curso de Administração em uma das melhores faculdades da América Latina, eu não sabia ao certo como fazer para cuidar melhor de meu dinheiro. Essa sensação continuou ao concluir meu Mestrado em Finanças. Fui descobrindo os melhores caminhos com uma boa dose de boa vontade, garimpando cursos especializados, lendo jornais, devorando páginas e páginas de Internet. E continuo fazendo isso até hoje.
Surpreendentemente, toda a informação que obtenho está lá, disponível, gratuita, dada de boa vontade por bancos e corretoras, ou a preços acessíveis por jornais e revistas. O problema é que não fomos preparados para passar nossos olhos sobre páginas de jornais e revistas que tratam de dinheiro e riqueza, que nos dão informações preciosas para o nosso bolso. Não fomos educados para explorar ao máximo o serviço dos bancos, garantindo melhores rendimentos ao nosso patrimônio e melhores clientes aos próprios bancos.
E, assim, seguimos pobres, investindo mal nosso parco dinheirinho, acreditando que bancos são os vilões da economia e que uma vida próspera e abundante depende apenas do resultado da Mega-Sena ou da estabilidade no emprego.
Quando ministro palestras e seminários sobre enriquecimento, a principal reflexão da platéia resume-se a ?como não fui atrás desse tipo de informação antes??. A questão é: por que não oferecer esse tipo de conhecimento a todos? Antes de as pessoas cometerem bobagens como a compra de um imóvel além de suas posses, antes de assumir um padrão de vida incompatível com sua renda, antes de ter filhos. Não faz sentido, em um país pobre como o Brasil, a inexistência de conhecimentos sobre economia doméstica e riqueza no currículo escolar. Defendo a bandeira de que toda faculdade, independentemente de ensinar Filosofia, Medicina ou Oceanografia, deveria incluir em seu currículo básico noções de como administrar o salário pessoal e de como multiplicar com segurança as sobras orçamentárias. Como conseqüência, todo profissional estaria mais preparado para desfrutar uma carreira inteira com mais tranqüilidade e segurança, com preocupações ligadas a seu trabalho, e não com as dívidas financeiras.
Se cada brasileiro entrasse no mercado de trabalho sabendo da fantástica transformação que sua vida poderia ter se poupasse regularmente uma pequena parte do que ganha, certamente não teríamos tantos cidadãos dependendo da caridade pública ou de seus próprios familiares. É uma questão de mudança lá na base de nossa formação, o que não é uma missão impossível. O conhecimento existe e é barato.
Fale sobre dinheiro, compartilhe oportunidades. Você perceberá que dividir informações sobre riqueza o enriquece, pois inevitavelmente diferentes pontos de vista, críticas e oportunidades surgem de seus interlocutores. Um país pobre precisa ao menos aprender a falar a língua da riqueza se quiser transformar seu futuro.


