Incomoda saber que, nos trajetos do relógio da vida, nem sempre vence o melhor, o time que joga limpo, que tem mais talento e que respeita as regras do jogo. Hoje resolvi escrever um artigo meio filosófico. A idéia nasceu de uma conversa que tive com um querido amigo, que, a certa altura, disse: ?O relógio da vida não atrasa?. E completou: ?por que você não escreve um artigo sobre isso??.
Na verdade, nossa conversa girava em torno de planos e projetos pessoais e profissionais. Na constatação de quantos deles nascem em meio a um universo de esperanças e motivações e, depois de algum tempo, afundam lenta ou rapidamente no fracasso, causando decepção, dor e descrenças.
Numa divagação fantasiosa, imaginávamos o quanto seria bom se todos tivéssemos a certeza de que a realização de sonhos jamais se tornaria um pesadelo. E que nossos projetos de vida nos conduzissem sempre à felicidade. Porque se isso fosse possível, sempre que algo desse errado, poderíamos recomeçar de outra forma e tentar de novo.
Mas sabemos que nem sempre é assim que as coisas funcionam. A partir do instante em que os ponteiros do relógio da vida começam a se movimentar, as cartas estão jogadas e o que nos cabe fazer é lutar e torcer para que as coisas ocorram conforme o esperado. Sem angústias e ansiedades, pois tudo acontece no seu devido tempo. Nesse sentido, o relógio da vida não atrasa.
Esse conceito se aplica também ao mundo corporativo. Observemos os negócios, os investimentos, as pequenas e grandes empresas. Quantas dela faliram em pouco tempo de funcionamento? Ou quantas fracassaram somente após décadas de atividade? E quantas ainda sobrevivem há anos ou até há mais de um século? Cada uma teve ou terá o seu tempo e a sua hora.
Há algumas questões que o tema convida à reflexão, tanto com relação à vida pessoal como aos negócios:
· Considerando-se, da maneira mais ampla possível, o ciclo ?começo, meio e fim?, o que estamos fazendo durante todo o tempo do ?meio??
· Em que estamos contribuindo para que esse ?meio? seja percorrido de forma gratificante, saudável e feliz? · Em que estamos contribuindo para que esse ?meio? dure o maior tempo possível?
· Em que estamos contribuindo para que esse ?meio? agregue aspectos unicamente positivos? Qual a qualidade na nossa vida ou do nosso negócio nessa fase? Qual o propósito ou o sentido de tudo isso, desde seu ?início??
· Estamos agindo de forma a ter certeza de que tudo valerá a pena e de que estamos dando o nosso melhor para que o giro completo dos ponteiros do relógio da vida seja sido percorrido com mais vitórias, acertos e alegrias do que com derrotas, erros e tristezas?
O teor filosófico inicial deste artigo foi apenas um pretexto para meu habitual comentário sobre os comportamentos no mundo corporativo. Sabe-se que toda empresa, para sobreviver, necessita de planos muito bem elaborados, com a melhor previsão possível de prazos, produção, vendas, lançamentos de novos produtos e serviços, investimentos. A cada início de ano fiscal, os ponteiros do relógio da vida iniciam seus movimentos.
Começar bem um trabalho ou um projeto é metade da garantia de que ele transcorrerá bem e que, muito provavelmente, terá boa conclusão: a meta do seu trabalho, o objetivo da sua área ou a missão da sua empresa.
O resultado será cobrado, seja pelos chefes, acionistas ou clientes. Essa hora vai chegar! E o relógio da vida profissional, da mesma forma que o relógio da vida pessoal, também não vai atrasar.
Nesse trajeto dos ponteiros, o que nos compete fazer é nos prover da maior quantidade possível de motivações, competências, conhecimentos e habilidades para que tenhamos um ótimo começo, um excelente meio e a quase garantia de um final feliz: o lucro da empresa ou a realização pessoal.
De um modo simplista, toda essa conversa pode ser comparada a uma partida de futebol. Depois de iniciado o jogo, espera-se uma partida brilhante, disputada, movimentada, com passes e dribles criativos, sem violência, com muitos gols e tudo o mais que constitui uma ótima partida. O final vem depois de 90 minutos. Esse conceito simplificado aplica-se a uma tarefa cotidiana do trabalho, uma cirurgia, uma aula, um casamento, um ano fiscal, à vida inteira. Cada um com seu ritmo e tempo próprios
Mas sabem o que incomoda? É que, em todos esses trajetos do relógio da vida, exatamente como numa partida de futebol, nem sempre vence o melhor. Nem sempre vence o time que joga limpo, que tem mais talento, que respeita as regras do jogo. Em muitos momentos e contextos da nossa cultura, o que tem valido é o placar final, que pode ser metaforicamente comparado ao saldo de uma conta bancária, um cargo, ao lucro, à fama ou ao status social.
Isso incomoda, porque dá uma vontade danada de manipular os ponteiros do relógio e fazê-lo atrasar, ou melhor, retroceder. Para que, num máximo de utopia e sonho, pudéssemos começar do zero uma nova sociedade e um novo tipo de relações humanas muito mais justas, leais, generosas e harmoniosas. Aí certamente felicidade e ponteiros de relógio andariam lado a lado.


