Paulo de Almeida

Conheça a superação do homem que se tornou maratonista depois de amputar a perna.

Aceitar a realidade e reagir é o caminho para vencer

Paulo de Almeida é um campeão. Natural de Sertânia, PE, ele mora em São Paulo e é tricampeão da Maratona de São Paulo, pentacampeão da Maratona de Nova York, Nyc Marathon, e bicampeão da Achilles Marathon. Além dessas, há muitas outras vitórias no currículo dele, mas é preciso dar destaque para uma em especial: a superação da amputação de uma perna.

Em dezembro de 1997, Paulo sofreu um grave acidente na empresa onde trabalhava. Uma empilhadeira caiu sobre seu pé direito. Depois de quatro cirurgias, recuperação pós-operatória, fisioterapia e adaptação à prótese, ele pôde voltar a caminhar. Para quem apenas lê sua história, pode até parece ter sido fácil, mas não foi. Paulo sabe bem dos dias de angústia, desespero e falta de perspectiva para viver. No começo, ele se fechou para o mundo, ficava sozinho e bebia bastante. Até que um dia, assistindo a uma competição de triatlo, viu um atleta que usava perna mecânica correndo. Isso chamou muito sua atenção, e foi a partir daí que impôs um desafio a si mesmo: disputar corridas.

Paulo começou a treinar sozinho, pois não possuía recursos financeiros para contratar um treinador. Todos os gastos que tinha para correr eram pagos com o dinheiro que deveria ser usado para o aluguel do apartamento. Além das questões financeiras, também teve muitas outras dificuldades, mas deixo ele próprio contar na entrevista a seguir. Ao conhecer sua história, você perceberá que podemos atingir nossos objetivos, sermos mais felizes com o que temos e superar obstáculos que parecem instransponíveis. Para isso, basta nos propormos a realmente vencer nossos desafios. Paulo tem feito palestras pelo Brasil para contar como foi sua superação e inspirar outras pessoas. Boa leitura e inspiração para você!

Depois do acidente, sua vida podia ter tomado vários rumos, mas por que decidiu se tornar corredor?
Eu já corria um pouco antes do acidente. Depois de perder a perna, continuei acompanhando as competições, e isso despertou em mim um sentimento de que poderia prosseguir. Decidi provar para mim que podia correr como antes.

Quais sentimentos você teve logo depois do acidente? Como esperava que sua vida seria dali para frente?
Logo após o acidente, não tinha muitas perspectivas por pura falta de informação. Achava que meu destino era pedir esmolas nos faróis, além de me sentir acuado e sem futuro. Enfim, estava a um passo da depressão profunda.

Ao passar por um acidente como o seu, há duas opções: desistir da vida ou reagir positivamente. Especialistas explicam que as pessoas que reagem bem são resilientes, ou seja, têm a capacidade de passar por um trauma, sofrer e se reerguer diante dele. Foi isso o que você fez?
Depois do acidente, minha rotina era levar uma vida completamente sem perspectivas – bebia quase todos os dias, não possuía prótese, andava de muletas e não me importava mais com as coisas do dia-a-dia. Acabei perdendo o controle da minha vida. Certa manhã, acordei muito mal devido ao excesso de bebida da noite anterior, estava em minha casa, sozinho e mal cuidado. Num momento de lucidez, consegui enxergar a situação em que me encontrava e decidi mudar. Foi simples assim: queria apenas mudar, e, logo após esse sentimento, fui procurar ajuda.

E onde você buscou forças para mudar?
Procurei ajuda de um psiquiatra e psicólogo. Isso foi fundamental para minha virada.

Como você estaria hoje se tivesse continuado em casa reclamando da vida?
Não iria agüentar por muito tempo, pois não consigo me enxergar sem reagir. Percebi que tinha perdido uma perna, e não a vida.

Depois de passar pela aceitação do acidente, ao decidir correr, você enfrentou dificuldades, e, mesmo assim, se tornou um maratonista vencedor. O que o fez superar tudo isso?
Não decidi conscientemente que me tornaria um maratonista, meu objetivo era apenas superar minhas dificuldades. Quando me senti capaz, meu espelho eram os outros atletas. Meus problemas nunca foram os treinos ou a disciplina, mas conseguir viver do esporte e ter um patrocínio para manter os gastos de manutenção com próteses e meias. Foi através da prática esportiva que consegui me recuperar.

No que você pensa quando está numa corrida e a prótese quebra (coisa que já aconteceu) ou sente muita dores? Como vê e supera essas dificuldades?
Em 2001, quando corri pela primeira vez a Ultramaratona da África do Sul, após 86 km, faltando apenas 4 km para terminar a prova minha prótese quebrou. Não pude chegar a tempo. Eu me senti igual a qualquer outra pessoa que não conseguiu atingir seus objetivos. Não pensei na minha deficiência, mas apenas que não consegui realizar aquilo que me propus a fazer. Por esse motivo, voltei em 2007, terminei a prova e atingi meu objetivo.

Se não fosse o acidente, você acha que teria se tornado maratonista? E que diferença fez na sua vida se tornar maratonista?
Com certeza, não iria me tornar um maratonista se não tivesse ocorrido o acidente. O esporte e a confiança adquirida com ele me abriram portas para o mundo, pude conhecer pessoas, países e me sentir realizado.

Se tivéssemos a capacidade de enxergar em algo muito ruim a possibilidade de mudar completamente nossa vida para melhor, seria mais fácil superar essas situações? Qual é o seu conselho para as pessoas melhorarem suas vidas?
Meu conselho é, antes de tudo, aceitar a realidade. O sofrimento é causado por uma negação, uma situação que não se aceita. Para mim, tornar o ocorrido no acidente em oportunidade foi uma mudança da minha personalidade. Agora, sou o Paulo de Almeida sem perna. Isso faz toda a diferença. Sou assim e me aceito assim.

Depois de passar dificuldades para obter patrocínio e precisar pagar as despesas das corridas com o dinheiro que deveria usar para o aluguel do apartamento, hoje você obtém o seu sustento sendo maratonista?
Sim, minha renda sempre veio do esporte. Não possuo outra atividade que não seja ele.

Hoje, você é um campeão. Está mais satisfeito com sua vida agora ou era mais feliz antes do acidente?
Fico com medo de dizer que sou mais feliz hoje e depois encontrar um monte de gente querendo cortar a perna… (risos).

Além do bom humor e realização, o esporte também lhe trouxe o amor. Como é o seu dia-a-dia?
Realmente, foi através do esporte que conheci minha esposa. Casamo-nos há três anos, e ainda não temos filhos. Nossa rotina não é diferente da de outros casais – talvez a diferença seja o fato de acordamos às 5h30 da manhã para correr.

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