Perdas no varejo

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Um dos vilões que contribuem com a redução dos lucros do setor mais competitivo da economia mundial Além de competir no mercado mais hostil da economia, o varejo enfrenta problemas que para outras indústrias são irrisórios: seus índices de perdas são absurdamente altos em função de possuir unidades públicas de negócios que estão sujeitas a todos os tipos de ocorrências, contribuindo assim negativamente nos seus resultados financeiros. A questão do roubo torna-se uma neurose obsessiva para todo varejista, desde o lojista de menor porte até as grandes redes. Entretanto, pouco tem sido feito para se combater esse problema em uma escala nacional.

Até hoje o Brasil não contabilizou as perdas no varejo, embora o setor tenha uma participação expressiva no Produto Interno Bruto (PIB), em torno de 7%. As perdas têm varias causas: furtos externos e internos, fraudes, erros administrativos (falhas de codificação de produtos e de digitação, etc.) e erros operacionais (problemas de estocagem e empilhamento, falta de refrigeração adequada, vencimento do prazo de validade de mercadorias).

Iniciativa pioneira

Há exatos dois anos, o Provar/USP criou a primeira iniciativa acadêmica nacional para dar uma nova abordagem ao problema: o) Grupo de Prevenção de Perdas (GPP). Eles irão buscar alternativas para reduzir as perdas num ambiente de inflação controlada e idealizar uma metodologia de prevenção adaptada à realidade brasileira.

Ainda este ano, o Provar/USP pretende fazer o primeiro levantamento de perdas no varejo, com apoio da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), Associação Nacional da Construção (Anamaco) e a Associação Brasileira de Farmácias (Abrafarma). O objetivo é reverter a falta de um histórico nacional de perdas. Cecília Leote, coordenadora do GPP acredita que não se adotava nenhuma medida no País, porque as perdas eram encaradas principalmente como resultado de furtos externos, reduzindo todas as políticas de prevenção a um “jogo de polícia e bandido”. Além de impossibilitar a apuração das perdas, a inflação alta estimulava as empresas a recuperarem seus prejuízos por meio de aplicações financeiras.

“Como as perdas não entravam na lista de prioridades, nem as empresas nem o País se preocuparam em fazer um histórico do problema. A prevenção era feita por um profissional não-especializado, que se limitava a aplicar técnicas empíricas, baseadas em experiências pessoais”, revela Cecília, que também integra o comitê do IMRA em Washington, EUA.

Estudos revelam perdas expressivas

Desde a sua criação, o GPP do Provar/USP fez três levantamentos junto a empresas. O último, realizado em abril de 1999, reuniu dados de 40 companhias, entre supermercados, atacadistas, lojas de departamento, eletroeletrônicos e de descontos, farmácias e drogarias. Quase a metade dos entrevistados (48%) perdeu em 1998 2% da venda bruta. Para outros 34%, as perdas alcançaram perto de 3%. As causas mais apontadas foram: furtos internos (48%), erros administrativos (29%) e furtos externos (20%). Os furtos internos mais freqüentes foram produto ou dinheiro (62%), desvio no recebimento de produtos (19%) e desvio de caixa (14%).

Perdas Furtos internos Erros administrativos Furtos externos Outra

Principais causas 48% 29% 20% 3%

Furtos Internos Produto ou dinheiro Desvio de recebimento de produto Desvio de caixa Outra, Principais causas 62% 19% 14% 5%

A pesquisa procurou ainda levantar quanto os varejistas investem na prevenção de perdas. Embora a maioria deles disponha de circuito interno de TV (64%), etiquetas eletrônicas (66%) e realizem treinamento de pessoal (63%), 53% gastaram menos de 0,2% da venda bruta em ações preventivas. Para outros 20%, esse investimento ficou entre 0,2 a 0.4%. Já 22% reverteram mais de 0,4% em prevenção.

Ações Preventivas 53% dos entrevistados 20% dos entrevistados 22% dos entrevistados Média EUA

Percentual da venda bruta investida 0,2% De 0,2 a 0,4% Mais de 0,4% 0,59%

Cecília Leote ressalta que o investimento registrado pelas empresas brasileiras entrevistadas amola está aquém de países como os Estados Unidos, cujo índice médio de perdas em 1998 foi de 1,72% sobre a venda bruta. Em 1997, os norte-americanos aplicaram 0,49% da venda bruta em prevenção de perdas. Em 1998, esse montante subiu para 0,59%.

Embora o varejo brasileiro não saiba quantificar as somas perdas, Cecília afirma que, se por hipótese fosse aplicada a média norte-americana de perdas (de 1,72%) sobre o faturamento dos 300 maiores supermercados brasileiros em 1998, só as perdas dessas empresas teriam representado R$ 655 milhões.

“A exemplo de vários outros países, o varejo no Brasil tem em média um prejuízo com perdas superior a 2% de seu faturamento bruto”, estima Fernando Fleider, gerente de Projetos de Prevenção de Perdas da ICTS Global, multinacional que atua na área em seis países e que responde no momento, ao lado da Andersen Consulting, pela implantação de um programa de prevenção de perdas no Grupo Pão de Açúcar. A esse número devemos somar outras estimativas do próprio Provar. “Acreditamos que o índice de perdas no segmento de perecíveis, por exemplo, pode chegar a até quase 10% sobre a venda bruta”, calcula Cecília Leote, coordenadora do seminário do Provar.

Exceções comprovam regra

Algumas empresas já conseguiram contornar as perdas e ganhar em faturamento, lucro e posição do ranking do seu segmento. Suas experiências comprovam que, com o fim dos tempos de ganho baseado em giro financeiro, a prevenção de perdas pode ser a “bolsa de valores” – sempre em alta – da pessoa jurídica moderna. Segundo Fleider, empresas que alcançaram índices de perdas entre 1% e 2% podem ser consideradas de sucesso.

Uma delas é a Drogaraia, de São Paulo. Adotando medidas como a revisão do focal de exposição dos produtos mais visados para furtos, a implantação de um circuito interno de televisão mas lojas e, principalmente, a estruturação de uma boa política de recursos humanos e a impressão de mensagem nas embalagens dos medicamentos sobre autorização para venda exclusiva, a rede conseguiu alcançar o índice médio de 0,9% de perdas sobre o faturamento bruto em suas 77 lojas espalhadas pelo estado.

Indústria de prevenção em ascensão

Outro indicador do aumento da preocupação das empresas e da demanda por métodos de prevenção de perdas é a evolução dos balanços das produtoras e representantes de equipamentos e acessórios de segurança eletrônica. Um dos exemplos é o do grupo nacional Nautec, provedor de soluções de prevenção de perdas para diversos ramos varejistas. Eles fabricam em Caxias do Sul equipamentos eletrônicos, etiquetas rígidas e acessórios para prevenção, representando produtos norte-americanos do segmento, e atuam também em merchandising e comunicação visual. No ano passado, seu faturamento foi de R$ 11 milhões. Dessa cifra,70% foram obtidos em prevenção de perdas junto a clientes como Carrefour (seções de confecção, bebidas, calçados e CDs), Riachuelo, Lojas Marisa, Grazziotin e Renner.

O número é um grande salto em relação ao faturamento de 1998, que ficou na casa dos R$ 6 milhões. Na opinião de Luiz Fernando Dias Sambugaro, diretor de marketing, o crescimento da Nautec acompanha o avanço do próprio mercado de prevenção de perdas. “Com o aumento do desemprego, o índice de perdas por furtos aumentou por volta de 30% no último ano. Paralelo a isso, o custo dos equipamentos de prevenção de perdas foi reduzido, as opções tecnológicas foram multiplicadas, melhorando a relação custo-benefício da implantação dos sistemas. E assim as empresas ficaram mais interessadas”, conclui.

Crescimento é marca do setor

O desempenho de sucesso também é uma marca de outra empresa de equipamentos para prevenção de perdas no Brasil, a Plastrom Sensormatic, joint venture entre a empresa brasileira Plastrom e a matriz norte-americana da Sensormatic Corporation, considerada líder mundial em segurança eletrônica. Instalada no Brasil em 1991, a Plastrom Sensormatic conquistou a liderança de mercado em apenas três anos. Foi eleita a melhor unidade da Sensormatic no mundo, superou os R$ 40 milhões de faturamento e é considerada a terceira fábrica da Sensormatic Corporation. Atuando em três divisões – Grandes Contas, Comercial Industrial e Varejo – a Plastrom Sensormatic acumula uma lista de clientes que inclui Wal-Mart, Lojas Renner, C&A, entre outros. A conquista de vários setores do mercado motivou também a indicação da empresa pela Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Materiais de Construção) como detentora de tecnologia padrão para 100 mil associados, numa iniciativa que pretende reduzir de 3% para 0,5%, o índice de perdas do setor de construção.

Nos mais diversos ramos da indústria e comércio, a Sensormatic Corporation já soma mais de 20 mil “pedestais” ou antenas, instalados em pontos-de-venda de todo País. Os números inspiraram a construção de uma nova fábrica em Barueri, Grande São Paulo, para a qual estão sendo destinados US$ 5 milhões.

A concorrente Checkpoint do Brasil, subsidiária da norte-americana Checkpoint, especializada na produção e comércio de etiquetas rígidas (aquelas “bolachas” muito comuns em lojas de roupas, de sensores e principalmente de etiquetas adesivas de papel com circuito eletrônico, já exibe, em menos de quatro anos de atividades, um portfólio com os nomes das livrarias Saraiva, da cadeia norte-americana Office Max (que atua nos segmentos de papelaria, informática e móveis de escritório e está chegando ao Brasil) e da rede de farmácias Farmax. Segunda no ranking mundial em fabricação e venda de equipamentos de segurança, a empresa tem um faturamento global de US$ 700 milhões. O faturamento nacional chegou a US$ 6 milhões em 1999. E não deve parar por aí. A expectativa é saltar para US$ 9 milhões neste ano.

A maioria dos clientes busca atualmente na Checkpoint sua especialidade: as etiquetas adesivas com circuito eletrônico, ideais para produtos com índice de perda a partir de 2% sobre o faturamento e custo unitário de venda superior a R$6,00. Segundo o gerente de vendas Tadeu Bronhara, “essas etiquetas, ideais para produtos de supermercados, livrarias, farmácias e perfumarias, já respondem por 30% das vendas da Checkpoint do Brasil”. O sistema conta inclusive comum a sofisticação, a etiqueta adesiva de 2×2 centímetros, lançada mundialmente há cerca de quatro meses.

Comitê do Provar

Para solucionar o problema de perdas no varejo, algumas empresas, como o Pão de Açúcar e Lojas Americanas, formaram o Comitê Diretor de Prevenção de Perdas do Provar/USP. Também fazem parte do grupo Atacadão, Carrefour, Casa &Vídeo, Drogasil, Drogaraia, Expand Group, Grazziotin, Lojas Marisa, Magazine Luíza, Makro, Pague Menos e Sonae. Esses e outros varejistas estão alarmados, por exemplo, com as conclusões do levantamento do Provar/USP, onde os furtos dos próprios funcionários foram as principais causas desse grave índice de perdas – quase a metade dos entrevistados(48%) perdeu 2% da venda bruta. O que indica que ainda há muito o que se fazer. A começar, dentro de casa.

Provar – TELEFONES(0**11)818-6045 / 813-6467 E-mail: provar@fia.fea.usp.br Cecília Leote – E-mail: leote@openlink.com.br Checkpoint – Telefone (0**11) 542-4144 E-mail: checkpoint@checkpt.com.br Sensormatic – Telefone: (0**11) 7295-8511 E-mail: marketing@sensorbrasil.com.br

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