Não seja uma pessoa ?transparente?. Produza atitudes! Estava na Espanha e um fato curioso e ao mesmo tempo engraçado me chamou a atenção. Precisei ir a um salão de beleza para cortar e arrumar meu cabelo. Logo que cheguei ao salão, quando fui ser atendida, sentei-me, como nós sempre fazemos aqui no Brasil, e o cabeleireiro me surpreendeu:
— A Senhora pode ficar em pé, por favor, para que eu alinhe o corte do seu cabelo?
Imagine a minha reação quando o moço me pediu para ficar em pé! Então perguntei a ele:
— Mas como você vai arrumar meu cabelo?
— Vou fazer um cabelo divertido, ora.
Após ele falar isso, o medo começou a me gelar a espinha. Afinal, primeiro ele pede para eu ficar em pé, depois diz que vai fazer do meu cabelo um cabelo divertido.
— Mas o que é um cabelo divertido ? ? indaguei.
— Ah…isso é simples. Assim, a senhora mesma pode arrumar seu cabelo sempre que precisar. Afinal, as mulheres sempre reclamam que quando saem do salão, o cabelo está divino, mas quando chegam às suas casas, o cabelo desmorona e elas não conseguem fazer seus penteados sozinhas. Então aprenda: é só bagunçar sempre o cabelo fazendo assim ? nessa hora, ele parecia ensaboar meus cabelos com as mãos: ?A senhora faz assim, chacoalha bem o cabelo, deixa ele bem bagunçado mesmo?. Então, ele nunca estará desarrumado! Compreendeu?
— Sim, compreendi! Mas é um cabelo que chama muito a atenção!
— Mas a senhora quer ser transparente por acaso?
Então, me dei conta do enorme aprendizado que aquele cabeleireiro me ensinou. Realmente não queremos ser transparentes, embora estejamos assim a maior parte do nosso tempo. Aprendemos a seguir regras e a não sair dos padrões. Dessa forma, ficamos transparentes perante o próximo, transparentes à nossa família e transparentes, também, diante dos acontecimentos mundiais. Parece que nos tornamos seres mecânicos, que agem sem ao menos saber o porquê. Fatos que eram para nos deixar atônitos, simplesmente, passam despercebidos por nós.
Enquanto comemos, assistimos ao noticiário da TV, e nem mesmo as más notícias ou os desastres alheios fazem com que paremos de nos alimentar. Não nos toca mais. Ficou transparente. Ver a miséria pela janela do carro ou a violência em toda parte passou a ser algo natural, que não nos atinge. Mal ouvimos o que o outro tem a nos dizer, estamos superficiais. Vivemos numa seqüência de dormir,acordar,comer,trabalhar,dormir,acordar,comer,trabalhar…
Saí do salão e fui andar pelas ruas. Pensei na vida e nessas atitudes. E, ninguém notava o meu cabelo divertido e bagunçado. Lembrei do cabeleireiro novamente. Ele tinha razão, estamos todos transparentes. E essa sensação foi corroendo minha mente, até que avistei à minha frente uma passeata de homens, no meio das ruas, em ato de protesto. Em suas faixas, palavras enormes diziam: ?Direitos iguais para homens e mulheres. Também temos o direito de ter a guarda de nossos filhos assim como as mães?.
Fiquei impressionada e, ao mesmo tempo, muito feliz com o que vi. Afinal, nunca imaginaria que, um dia, veria homens protestando a favor de direitos iguais aos das mulheres ? sinal de que os tempos mudaram, mas muito mais que isso: sinal de que há pessoas, assim como o cabeleireiro que se negam a ser transparentes. São pessoas que lutam por um mundo melhor e justo para todos. Pessoas que conhecem a sua missão e sabem da importância dela não apenas para si próprios, mas para todos ao seu redor. São pessoas que vêem e são vistas.
Se cada um de nós tivesse essa consciência de que ver e ser visto é o grande trunfo, além de encontrarmos a nossa felicidade, com certeza faríamos desse mundo um lindo lugar para todos nós. Já refletiu sobre isso? Você tem sido transparente ultimamente?


