Quem vai substituir o dólar?

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Quem vai substituir o dólar? De um lado, o dólar despenca. Parte do mundo entra em crise. Outra parte diz: ?E daí? Não precisamos dessa moeda?. Será que não?

Durante o século 20, por uma série de fatores, o dólar norte-americano assumiu a posição de denominador comum da economia mundial. Tudo era cotado com base na moeda norte-americana, que substituiu assim um papel que havia pertencido à libra esterlina e, antes dela, aos dobrões e peças de oito da Espanha, em uma menor escala.

No fim da década de 80 e começo dos anos 90, parecia que uma maneira de resolver os problemas econômicos de países em desenvolvimento era adotar o dólar como moeda local. A dolarização se não chegou a fazer parte da cartilha oficial do FMI para todos os casos, no mínimo era vista com bons olhos pelos economistas da instituição, que viam nela uma forma de dar mais solidez a economias cambaleantes.

Um dos resquícios dessa era é que o Equador usa o dólar como sua moeda oficial ? se bem que essa foi a última medida tomada para evitar a quebradeira geral em uma economia já há muito tempo em coma. As notas verdes também são oficialmente usadas com a moeda local no Panamá e em El Salvador. Extra-oficialmente, o dólar circula livremente em boa parte dos países do Caribe devido à importância dos turistas norte-americanos na região.

Por bons anos tudo correu bem, mas a confiança na moeda norte-americana começou a ser abalada com a crise das empresas pontocom, que aumentou com o bom desempenho do euro e do yuan e alcançou o nível mais alto com a crise do subprime.

Os efeitos no mundo ? O mercado reagiu rápido ao perceber que o dólar não é mais aquele. Pegue o petróleo, por exemplo, não houve uma queda de produção mundial nem o consumo aumentou absurdamente fora das previsões. De repente, essa commodity rompeu a barreira de 120 dólares o barril e, mais, parece ter fixado esse valor como seu novo piso. Dificilmente o preço fica abaixo disso. Em uma verdade econômica à qual estamos começando a ficar desacostumados, o preço do barril se mantém constante. O dólar é que está valendo menos. Para os barões do petróleo, hoje se necessita de 120 dólares para comprar o que 90 dólares comprava meses atrás. Aposto que você conhece uma palavra para esse fenômeno. Vou dar uma dica, começa com ?in?.

Seria o caso de o petróleo parar de ser cotado em dólar e passar para o euro, como já se vê em determinados produtos no comércio mundial?

Ainda não, pois, paradoxalmente, o dólar fraco está ajudando a economia dos Estados Unidos e, com isso, afastando o medo de uma grande depressão mundial, pelo menos por enquanto. ?No comércio mundial, o dólar está depreciado em relação ao euro. As exportações norte-americanas se beneficiaram e permanecem bem fortes. As exportações diluíram ? mas não eliminaram ? a tendência negativa na economia dos Estados Unidos?, diz Dennis Lockhart, espécie de vice-presidente da Foundation for Enterprise Development (FED) ? Banco Central Norte-americano. Ele também afirmou que o dólar deve continuar a ser a principal moeda nas transações comerciais por um bom tempo, ?mas haverá uma gradual diversificação no uso de outras moedas nos contratos internacionais?.

O que eles farão ? Essa diversificação ocorrerá até porque ninguém espera que somente as exportações resolvam o problema da economia norte-americana. Os sinais dados até agora preocupam a National Federation of Independent Business, a poderosa associação que representa pequenas e médias empresas daquele país. ?O medo da recessão está se espalhando e sinais de uma desaceleração da economia estão em todos os lugares, mesmo nas grandes empresas?, diz William Dunkelberg, principal economista do grupo. Não são poucos os colegas dele que já anunciam uma nova crise depois que a poeira das hipotecas subprime passar, causada pelo desemprego em alta nos Estados Unidos.

Myron Scholes, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, resume: ?Segundo minha perspectiva, não sei se o pior já passou ou estamos na área da calmaria no olho do furacão. Podemos muito bem estar vendo o nascimento da pior crise econômica desde o fim da Segunda Guerra?. O secretário do tesouro (equivalente à posição de ministro da fazenda) norte-americano Henry Paulson está, por enquanto, inclinado a seguir a cartilha de todos seus antecessores: cuide da economia e a moeda se arruma por si só. Pesquisas mostram que a população e empresários esperam que a secretaria tome uma atitude mais ativa.

Mundo descolado? ? Enquanto isso, o mundo dá alguns sinais positivos de que não depende tanto assim do que acontece nos Estados Unidos. A economia do Japão cresceu 3,3% no primeiro trimestre de 2008 ? mais que qualquer analista esperava. E ela cresceu exportando para seus vizinhos asiáticos. Da mesma forma, a economia da Alemanha está crescendo a uma velocidade que não era vista há 12 anos. Se o mundo parece mostrar que, necessariamente, não vai mal se os Estados Unidos vai mal, por que ainda daria tanta importância ao dólar?

Hora da verdade ? Existem alguns candidatos à ocupar cadeiras cativas na diversificação das moedas usadas no comércio internacional pelos analistas.

Se considerarmos apenas o volume e potencial de comércio e crescimento, o yuan chinês poderia entrar no grupo. Em maio, chegou a valorizar meio ponto percentual diante do dólar em apenas um dia, acompanhando o movimento do euro. A China, entretanto, é ainda uma novata no comércio internacional, apesar dos ótimos resultados conseguidos.

A rigor, se a Zona do Euro (países onde o euro circula) fosse considerada um único país, teria o maior PIB do mundo. Adicione a isso sua tradição de instituições sólidas, que sobrevivem mesmo às piores guerras, como vimos no finado e conturbado século 20, e teríamos o euro como o substituto natural do dólar. Entretanto, um time de analistas acha que a moeda unificada ainda tem muito o que provar, por exemplo: nunca enfrentou uma crise para mostrar seu valor. Há, porém, outro grupo de especialistas mais que satisfeito com o que o euro conseguiu e consegue apoiado em fortes economias: o PIB da Zona do Euro cresceu 0,7% no primeiro trimestre de 2008, um resultado expressivo que deve fortalecer ainda mais essa moeda.

E como imitar é a forma mais pura de elogiar, na esteira do euro outros blocos econômicos já pensam em unificar suas moedas. A primeira dessas mudanças deve sair já em 2009, quando cinco países africanos unificarão suas moedas.

Mas o que deve fazer os Estados Unidos ? e a própria Zona do Euro ? botar as barbas de molho é o que deve acontecer em 2010. Liderados pelo Catar que, em 2007, tinha o maior PIB per capita do mundo e pelos Emirados Árabes Unidos, cuja economia cresce a ritmo vertiginoso, cinco países trocarão suas moedas pelo khaleeji, nome que significa ?do golfo?. Além dos países mencionados, a Arábia Saudita, Bahrein e Kuwait também darão força à nova moeda. A ação será extremamente bem-vinda, já que atualmente o rial da Arábia Saudita tem cotação fixa em relação ao dólar, esse fato é apontado como um dos responsáveis pela inflação de quase 10% ao ano naquele país e pelo aumento no preço dos alimentos nos últimos meses.

Enquanto isso, o mundo flerta com velhas soluções. A valorização recente do ouro aponta para a volta da utilização do metal como instrumento de pagamento. Às vezes, antes de dar dois passos à frente, é preciso dar um para trás.

Assim, não há um candidato único a sucessor do dólar no horizonte. O mais provável é que tenhamos de nos acostumar a trabalhar, por algum tempo, com duas ou três moedas no mercado internacional.


Virtuais e empresariais ? o que pode vir por aí

Enquanto o dólar perde sua importância, algumas moedas alternativas surgem com trânsito livre em várias economias.

Não é um fenômeno novo. As mais diferentes empresas possuem programas de fidelidade, conhecidos genericamente por ?milhagem?. Ao efetuar a compra de um produto ou serviço, você acumula pontos que podem ser trocados por descontos ou outros produtos. Então, você e aquela empresa concordam que pontos e milhas são, no contexto, equivalentes a dinheiro. E não é pouco dinheiro. De acordo com uma pesquisa feita em 2004 pela faculdade de Comunicação da Universidade de Boston, 86% dos norte-americanos usam algum tipo de cartão de desconto ou fidelidade. Isso sem contar os programas que não necessitam de cartão, como o de seu telefone celular.

Telefone celular que pode ser vital na integração e criação de uma gigantesca massa de dinheiro/pontos oriundo de programas de fidelidade. Na Finlândia e no Japão, eles já estão sendo testados como meio de pagamento de transporte público. Ambos os sistemas utilizam as transmissões dos celulares das pessoas para entender quem pega que ônibus ou trem e em qual horário.

Na versão européia, esses dados são somados e, a cada mês, o cidadão recebe uma fatura informando que ele rodara tantos quilômetros usando o transporte público ? o que, a um custo de tantos centavos de euro por minuto, significa que ele deverá pagar tanto. Já no Japão, compram-se créditos antes. A conta de cada pessoa é acessada via celular e se debita automaticamente o crédito conforme se anda de ônibus ou metrô. Esse esquema foi desenvolvido pela Sony, e é só a ponta do iceberg do que esperam que ele seja em um futuro bem próximo. Tanto que o batizaram de Edy, iniciais de euro, dólar, iene (yen, no original). Através desse sistema, pontos de fidelidade, milhagem e dinheiro podem coexistir e se misturar em uma só conta e em um só aparelho.

Mas o que surpreende mesmo os analistas são as moedas virtuais, utilizadas em comunidades e jogos multiplayer na internet. Algumas delas chegam a ter cotações na vida real e sites especiais para câmbio ? com direito à distinção entre oficial, das empresas dos jogos e paralelo, mantido por fãs ou aproveitadores, que montam um verdadeiro mercado negro de moedas e itens que só existem na telinha do computador. Veja alguns exemplos:

» Linden dollars ? Moeda da comunidade virtual Second Life que, por algum tempo nos dois últimos anos, era apontada como o futuro do marketing e das vendas. Percebeu-se depois que tal mundo virtual não era tudo isso em termos de público, mas, mesmo assim, grandes marcas ainda estão presentes lá. Com um Real você compra aproximadamente 150 linden dollars.

» Ouro ? Moeda do jogo multiplayer World WarCraft, um dos mais acessados da internet. Dependendo do vendedor, um real vale de 45 a 50 ouros.

» Platina ? Segundo o jogo multiplayer Everquest, também muito popular, apenas metade do dinheiro é a raiz de todo mal, uma vez que nele se encontram duas moedas: a Platina do Bem e a Platina do Mal. Aparentemente, os julgamentos de moral não afetam o câmbio: você precisa de R$1,46 para levar uma Platina, seja de que facção for.

» Neocash ? Usado no jogo on-line Neopets, muito popular entre a criançada e um dos sites mais visitados da rede. Os moleques que conseguem pegar o cartão de crédito dos pais podem trocar um real por cerca de 61 neocashs.

Colaboração: Brasílio Andrade Neto

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