Reconhecer o óbvio – GV n. 217

Cinco caminhos criativos para reconhecer óbvio.

 

No artigo da semana passada, você encontrou o conto de Adams Óbvio, escrito por Robert R. Updegraff. Esse mesmo autor incluiu na história, anos mais tarde, os cinco caminhos criativos para reconhecer o óbvio.

 

Nesta semana, você descobrirá quais são eles!

 

Onde e como vamos descobrir o óbvio?

 

Aqui estão algumas perguntas-teste que devem, pelo menos, conduzir a imaginação através dos caminhos óbvios.

 

1. Não se impressione como a coisa sempre tenha sido feita ou de que modo outras pessoas gostariam de fazê-la.O importante é saber qual a maneira mais simples de realizá-la?

 

Esqueça todas as idéias, práticas, métodos, técnicas e tradições já usadas. Se uma criança de sete anos, desarmada de preconceitos de gerações, estivesse, pela primeira vez, analisando o problema, como será que ela o faria?

 

A experiência da vida é valiosa, mas pode intimidar, dificultar, complicar e afastar-nos do óbvio. É preciso pensar de forma simples, nova, original e corajosa para simplificar qualquer coisa. E não esqueça: este problema, quando for resolvido, será simples.

 

Existe uma maneira perfeita e mecânica de simplificar um plano, projeto ou analisar uma idéia para testar sua simplicidade. Registre cada item num papel e, à medida que for escrevendo, aplique a pergunta-teste: “Será que este item é absolutamente necessário?”.

 

É muito comum descobrirmos, sem querer, que começamos no ponto em que outros pararam. Assim, você está aceitando a somatória de idéias de outros homens. Considerando que a maioria delas se desenvolveram por acréscimo (como uma bola de neve), o jeito óbvio de simplificar uma idéia é começar novamente.

 

A técnica óbvia é eliminar todas as partes ou características supérfluas. Vá ao cerne do problema. Pergunte a si mesmo: “O que eu estou tentando fazer? Por quê?”.

 

Atualmente, um dos nossos maiores problemas é termos muitos métodos e práticas, maquinaria complicada, ferramentas, costumes e tradições profundamente arraigados.

 

Pensamos e planejamos nossas bases construindo-as por cima de uma fundação enrijecida de experiências e hábitos acumulados através de anos. Em vez disso, deveríamos começar do zero, como se, a cada manhã, acordássemos em um novo mundo, em que nenhum dos

problemas da vida e negócios, artes e ciências jamais tivessem sido resolvidos.

 

Esse é o primeiro e mais óbvio caminho para ser óbvio.

 

2. Imagine como seria divertido se tudo pudesse ser completamente invertido.Nada abre mais a mente para um novo caminho que fazer essa corajosa consideração.

 

O fato de algo ter sido feito ou construído de um certo jeito, por vários séculos, significa, provavelmente, que chegou a hora de questioná-lo. Talvez, o óbvio seja, realmente, inverter as coisas de algum modo.

 

A história de como R. J. Pigott, diretor de engenharia da Gulf Oil, desenvolveu um “dispositivo óbvio” para lubrificar ferramentas de corte é um desses casos.

 

Pigott estava olhando um mecanismo produzir rebarbas espirais de uma peça de aço que girava num torno: um fio de óleo caía do alto, enquanto a lâmina cortava por baixo.

 

Então, um pensamento lhe ocorreu: “Como o óleo por cima pode fazer um bom trabalho de resfriar e lubrificar a ferramenta na parte de baixo?”.

 

Ele foi para a prancheta e projetou um jato de alta pressão para dirigir o óleo para cima, exatamente entre a lâmina da ferramenta e o metal torneado. O novo método não só permitiu maior velocidade de corte como também aumentou a vida da ferramenta.

 

Assim, ele chegou a um método óbvio de lubrificar usando a técnica da inversão.

 

Se o revolucionário Convair Sea Dart, um avião a jato, que pode decolar da água, chegar a fazer tudo o que promete, será porque o criador do projeto, Ernest G. Stout, usou essa mesma técnica de inversão.

 

A história continua. Apesar das muitas vantagens e o fato de 4/5 da superfície terrestre serem cobertos de água, arqui-inimiga de todos os aviões que pousam em terra, o hidroavião foi relegado ao esquecimento por quase todos – menos pelo jovem Stout e um pequeno grupo de homens da marinha e engenheiros da costa oeste.

 

Stout lançou um avião a jato que pode decolar e pousar na água. Por mais de quatro décadas, o hidroavião não passava de um barco com asas, o que não é um bom desenho aerodinâmico. Esse homem teve uma inspiração, em vez de desenhar um barco que podia voar, ele se dispôs a fazer um avião que pudesse flutuar.

 

Usando essa técnica de inversão, ele desenvolveu um dos mais notáveis aviões do mundo, com a forma de um dardo de papel, praticamente impossível de afundar. Assim, ele iniciou uma das mais surpreendentes mudanças em estratégia militar, desde a invenção da bomba atômica. O Sea Dart é um avião óbvio.

 

3. Será que você conta com a aprovação e participação do público no seu projeto?Nos negócios, muitas decisões são tomadas dentro dos escritórios, e não nos lugares em que a ação realmente acontece.

 

Uma famosa rede de supermercados de Chicago decidiu lançar sua própria marca de café. Os especialistas nesse produto podiam, é claro, recomendar as misturas e tipos de torrefação. No entanto, o presidente da empresa preferiu fazer com que as famílias de Chicago escolhessem a mistura e o ponto de torrefação que desejassem.

 

Foram preparadas quatro amostras com misturas e graus diferentes de torrefação, embaladas em latas de meia libra sem identificação. Essas latas, cada uma representando uma diferente combinação de misturas e torrefação, foram distribuídas a milhares de domicílios. Nelas, havia um questionário para ser respondido indicando a preferência.

 

Desse modo, a rede de supermercados lançou o Royal Jewel – o café que Chicago

escolheu. O sucesso do produto já estava garantido, pois o próprio público o havia escolhido.

 

Frequentemente, alguns testes simples com um grupo maior ou menor de pessoas fazem surgir a preferência ou a maneira óbvia de fazer, produzir ou dizer alguma coisa.

 

Já que é o público quem decide nosso sucesso ou fracasso em tudo que tentamos fazer, parece muito óbvio pesquisar nossos planos junto ao mercado antes de irmos longe demais.

 

4. Quais são as oportunidades que estão passando despercebidas porque ninguém se importou em examiná-las?Na matriz de uma grande companhia de seguros, um homem ganhou um prêmio de 600 dólares por uma simples idéia na caixa de sugestões. Seu conselho aos companheiros foi: “Procure o óbvio com o qual ainda ninguém se importou”.

 

Existem milhares de idéias óbvias, em todos os negócios e profissões, que até

aqui ninguém se importou em examinar. Elas são tão lugar-comum que ninguém as percebe.

 

Em seu livro, Ray Giles conta a seguinte história que ilustra o fato de haver grandes oportunidades no óbvio:

 

“Há alguns anos, o vendedor de uma mercearia estava cortando queijo – um enorme queijo tipo americano. Quando pediam meio quilo, ele levantava a tampa de vidro e cortava uma fatia calculando o peso.

 

Enquanto isso, o produto ficava descoberto, sujeito ao pó e às moscas. Se tivesse pouca saída, esfarelava-se antes de terminar. A única proteção era uma casca grossa, pela qual os clientes pagavam com o peso do queijo.

 

Certo dia, o vendedor teve uma idéia – uma dessas bem óbvias que podia ocorrer a qualquer um: ‘Por que não dividir o queijo em fatias e acondicioná-las em embalagens higiênicas?’. Esse vendedor chamava-se J.L. Kraft. Toda vez que você comer um queijo Kraft não se esqueça de que uma idéia simples e óbvia pode levar à fortuna”.

 

Há, em quase tudo que usamos em nosso cotidiano, oportunidades para aperfeiçoamento – muitas vezes, tão óbvio que deveríamos ter vergonha de nossa cegueira.

 

Benjamin Franklin, incomodado por ter de usar dois pares de óculos (um para perto e outro para longe), desenvolveu as lentes bifocais, uma benção para toda a humanidade. Nada poderia ser mais óbvio.

 

Esse caso sugere que a melhor técnica para descobrir o óbvio é dar uma olhada bifocal em tudo o que usamos, fazemos e precisamos. Examinar de perto para ver se um detalhe pode ser melhorado e olhar de longe para ver se não há uma forma diferente para atingir o mesmo fim. Uma forma que seja mais simples, eficiente e econômica.

 

5. Quais são as necessidades específicas do caso? Muitas vezes, a própria situação indica alguma oportunidade de aperfeiçoamento, que ainda não foi considerada.

 

David A. Crawford, presidente da Pullman Inc., disse-me há anos que ele percebia a necessidade de acomodações nos trens que oferecessem, ao mesmo tempo, mais privacidade que os antigos beliches e fossem mais lucrativas para as ferrovias que os tradicionais carros dormitórios, que tinham capacidade limitada de lugares. Ele explicou o problema aos seus projetistas, que desenvolveram um conceito inteiramente novo de carros-leito.

 

Podemos chamar isso de criatividade óbvia, oriunda de uma situação insatisfatória.

 

Há também o caso dos Hartford Brothers, que possuíam lojas tipo pegue e pague. O do Woolworth com suas lojas de dois mil réis. Os postos de gasolina com suas toaletes limpas para motoristas. O inventor da caneta esferográfica que acabou com o tinteiro. A DuPont

com suas fibras sintéticas que não amarrotam.

 

Todas essas soluções eram criativamente óbvias. Além disso, atenderam aos desejos e necessidades do público – muitas vezes, não expressos nem percebidos. Entretanto, no momento em que alguém as transformou em soluções, ficou óbvio que a necessidade já existia há muito tempo.

 

O mundo está cheio de desejos, vontades e necessidades não expressas, esperando pelo homem ou mulher que faça o óbvio para resolver grandes problemas da vida diária.

 

E essas pessoas serão regiamente recompensadas!

 

 

Robert R. Updegraff

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