Responsabilidade bancária

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O lucro dos bancos bateu novo recorde histórico no Brasil. Fruto de uma política econômica que há mais de uma década privilegia o investimento no financeiro em detrimento do capital produtivo, as instituições bancárias estão legitimamente aproveitando-se das regras do jogo para ganhar mais O lucro dos bancos bateu novo recorde histórico no Brasil. Fruto de uma política econômica que há mais de uma década privilegia o investimento no financeiro em detrimento do capital produtivo, as instituições bancárias estão legitimamente aproveitando-se das regras do jogo para ganhar mais

As receitas com serviços bancários oriundas da cobrança de tarifas vêm galopando a passos largos desde o fim da crise inflacionária. Naqueles tempos, não havia motivos para se cobrar pelo fornecimento de talonários de cheques, emissão de extratos ou realização de uma transferência de recursos para terceiros. Afinal, vivíamos sob a égide de uma inflação que bateu em 3% ao dia. O Plano Real ensinou aos bancos outras formas de se ganhar dinheiro. E eles aprenderam muito bem a lição.

Atualmente a receita média apenas com tarifas é suficiente para pagar, com folga, toda a sua folha de salários. O conjunto dos sete maiores bancos no País faturou 19,8 bilhões de reais em 2003, apenas com tarifas, cifra elevada para 22,4 bilhões de reais em 2004. As despesas com pessoal, por sua vez, caíram de 18,7 bilhões de reais em 2003 para 18,3 bilhões de reais no ano passado. O Banco Central assiste passivamente a esse filme. Há incidência de tarifas até sobre valores depositados ? nada surpreendente para quem passou a cobrar inclusive pelo estacionamento. As tarifas não são, evidentemente, a única fonte de receita dos bancos. Os ganhos com ?tesouraria?, ou seja, investimento em títulos do governo federal, aqueles remunerados pela famigerada Selic, representam nada menos que 36% do total de lucros do sistema bancário. Mas a maior receita provém das operações de crédito. A concessão de empréstimos representou 43% do faturamento bancário no primeiro semestre de 2004. Aqui, a grande alavanca atende pelo nome de spread, isto é, a diferença entre o prêmio pago pelos bancos para captar dinheiro numa ponta, junto a outras instituições financeiras ou a poupadores e o quanto se cobra dos tomadores desses recursos, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas.

Porém, nesta oportunidade não tenho a pretensão de falar sobre os ganhos dos bancos ou sobre o fato de termos as mais elevadas taxas de juros e spread bancário do mundo. Chamou-me a atenção o alerta de um executivo do setor financeiro, Filiphe Falchioni, para o que ele denominou de ausência de ?responsabilidade bancária?. Afinal, não bastassem todas as receitas apresentadas, os bancos tornaram-se grandes lojas, com produtos e serviços dispostos em prateleiras, tais como seguros, planos de previdência privada e investimentos diversos.

Reciprocidade ? Os profissionais, por sua vez, tornaram-se vendedores. A palavra de ordem é ?reciprocidade?. Você tem um empréstimo concedido apenas se adquirir um título de capitalização. Falta-nos apenas o segurança da empresa terceirizada oferecer-nos um seguro de vida para passarmos pelo detector de metais… A grande preocupação reside no fato de que somos um país de desinformados. Se a matemática já é disciplina considerada das mais difíceis no ensino fundamental, o que se dirá de matemática financeira, que chega ao cúmulo de ser tratada como matéria optativa nos cursos de graduação em Economia, Administração e Contabilidade. A maioria dos empresários ignora como formar preços de venda. A maioria dos consumidores desconhece o poder predatório da capitalização composta, ou seja, da incidência de juros sobre juros.

Numa época em que a responsabilidade social é preconizada como atributo de organizações conscientes e alinhadas com os propósitos de um novo mundo, é justo questionarmos por onde anda a responsabilidade bancária. É nobre a criação de Fundações que assistam a crianças carentes. É admirável o patrocínio a atividades culturais. Mas é necessário ensinar a cada novo correntista como gerenciar seu orçamento doméstico, como decidir entre uma compra à vista e outra parcelada, como optar por investimentos, por menores que sejam, mas que realmente lhes tragam alguma rentabilidade futura. E, por que não dizer, ofertar crédito com taxas de juros sociais, reduzidas para atender a pessoas de baixa renda.

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