Ricardo Amorim – A economia brasileira, os mercados financeiros, as empresas, os negócios e as vendas

As vendas e a economia sob o ponto de vista de Ricardo Amorim Economista formado pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Administração e Finanças Internacionais pela Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais de Paris, Ricardo Amorim trabalha, há 15 anos, na indústria financeira como economista e estrategista de investimentos globais. O interesse por outras economias e culturas o levou a visitar mais de 60 países e a trabalhar na Europa e Estados Unidos.

Desde 2004, é diretor-executivo de estratégia de investimento para a América Latina do WestLB ? um dos maiores bancos da Alemanha ? onde gerencia uma equipe de economistas encarregada de analisar perspectivas econômicas e políticas mundiais e desenvolver estratégias de investimentos na América Latina para o banco e seus clientes em todo o mundo. Na televisão, é um dos apresentadores do programa Manhattan Connection, no ar todos os domingos pelo GNT.

Ricardo Amorim, que mora em Nova York, vem ao Brasil no próximo mês para abrir o Fórum Internacional da ExpoVendaMais e falar sobre as tendências para a economia em 2008. Em meio a uma movimentada agenda de entrevistas para redes de televisão, jornais e revistas de todo o mundo, ele concedeu uma exclusiva à VendaMais sobre a economia brasileira, mercados financeiros, empresas e negócios. Confira!

VendaMais ? Já é possível adiantar quais são as tendências para a economia brasileira em 2008?

Ricardo Amorim ? Desde 2004, a economia brasileira tem se beneficiado de um ciclo de crescimento mundial acelerado com baixa inflação e baixas taxas de juros mundiais. Esse ciclo, somado a uma expansão expressiva da demanda asiática, levou a uma forte alta do preço de commodities, como: produtos agrícolas, minérios e metais, beneficiando muito a economia brasileira, permitindo um fortalecimento enorme dos fundamentos econômicos e um crescimento mais sólido e sustentável. Salvo uma mudança do cenário internacional causada por uma desaceleração econômica global significativa ou uma forte elevação das taxas de juros mundiais, que são possíveis, mas improváveis, a economia brasileira deve sustentar um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) próximo a 4% em 2008.

O PIB revela o valor da produção realizada dentro das fronteiras geográficas de um país, em um determinado período, independentemente da nacionalidade das unidades produtoras.

E para o mercado de vendas? Quais setores têm as melhores perspectivas?

Se o crescimento do PIB se limitar a 4%, o crescimento do consumo no Brasil será bem mais acelerado. Em particular, setores cujas vendas são mais dependentes de crédito, como imobiliário, automobilístico, eletrodomésticos e móveis devem ter um desempenho muito bom nos próximos anos. A queda da inflação e o fortalecimento dos fundamentos econômicos brasileiros levarão as taxas de juros no Brasil a convergirem a níveis internacionais nos próximos dois ou três anos, permitindo uma forte expansão do crédito.

As taxas de juros médias em mercados emergentes estão em 2,5%. No Brasil, elas ainda são de 8%.

Quais são as implicações das grandes tendências mundiais para o dia-a-dia dos vendedores?

Atualmente, as principais tendências mundiais estão associadas a um papel crescente das economias asiáticas. As emergentes, especialmente China e Índia, por serem muito populosas e pobres, demandam muitas commodities metálicas para a construção de infra-estruturas urbanas e agrícolas, à medida que o padrão de vida e o consumo de alimentos da população aumentam. Além disso, o avanço da tecnologia do biocombustível também irá colaborar para um forte crescimento da demanda de alimentos no mundo. Com isso, no Brasil, a renda em regiões agrícolas deve crescer mais rapidamente que em regiões urbanas. Vendedores que focarem seus esforços nessas regiões terão mais chances de serem bem-sucedidos.

Pode-se prever quais serão os riscos e oportunidades para as empresas brasileiras em 2008?

O Brasil deve atingir o grau de investimento, possibilitando que suas empresas tenham acesso ao capital mais barato e possam expandir seus negócios no País e no exterior. Isso abrirá grandes oportunidades para as empresas brasileiras, que conseguirão cada vez mais participar de maneira ativa em mercados mundiais, e não apenas no brasileiro. Por outro lado, perspectivas mais favoráveis para nossa economia nos próximos anos atrairão investimentos significativos de empresas estrangeiras, aumentando a competitividade no mercado local. O consumidor brasileiro se beneficiará dessa tendência. Contudo, para as empresas que não se prepararem adequadamente, essa competição pode ser mortal.

Grau de investimento é uma espécie de selo de investimento não-especulativo que amplia o leque de investidores e reduz o custo de captação.

O que são os chamados “mercados financeiros” e como eles interferem nas empresas, nos negócios e, conseqüentemente, nas vendas?

Tradicionalmente, os mercados financeiros são fontes de investimento e financiamento para as empresas. No Brasil ? em função dos desequilíbrios das contas públicas, da inflação elevada e das conseqüentes taxas de juros elevadíssimas ?, o papel do mercado financeiro como fonte de financiamento das empresas foi bastante limitado. À medida que essas restrições deixarem de existir, cada vez mais as empresas terão condições de usar os mercados financeiros como parceiros para alavancar e expandir seus negócios e suas vendas.

O que os vendedores precisam saber sobre esses mercados e onde buscar essas informações?

Como em qualquer setor, nos mercados financeiros há uma concorrência de diferentes empresas. No caso, bancos buscando negócios com clientes. Idealmente, os vendedores devem estabelecer uma relação estreita com alguns desses bancos que atuarão como parceiros, ajudando-os a financiar e expandir suas vendas.

Você trabalha na indústria financeira como economista e estrategista de investimentos globais. Que tipo de investimento recomenda para vendedores e empresários?

Toda decisão de investimento deve levar em consideração o perfil individual de cada investidor e as perspectivas dos mercados. Do ponto de vista da perspectiva dos mercados, as taxas de juros brasileiras devem cair significativamente nos próximos anos. Portanto, aplicações em títulos de renda fixa prefixados são interessantes. Além disso, a estabilidade econômica e o crescimento devem levar a Bolsa de Valores brasileira a ter um bom desempenho. A expansão do crédito e dos potencias compradores de imóveis deve causar uma forte elevação dos preços dos imóveis. Essas são tendências que vendedores e empresários devem levar em consideração em seus investimentos. Entretanto, na hora de definir sua carteira de investimentos, cada um deve considerar seu grau de tolerância a risco, suas expectativas de retorno e o prazo de seus investimentos.

O título de renda fixa prefixado é uma opção para investidores avessos à incerteza dos juros pós-fixados, mas que, ao mesmo tempo, querem acompanhar as taxas de juros vigentes no mercado, reduzindo o risco de aplicações prefixadas de longo prazo.

O grau de tolerância a risco indica a possibilidade de perdas durante o período de investimentos. É como correr riscos de forma calculada.

Atualmente, como o Brasil é visto pelos investidores estrangeiros?

De forma muito positiva. Aliás, de forma bem mais positiva que os próprios investidores brasileiros vêem o Brasil. Por terem observado outros processos semelhantes em outros países, os investidores estrangeiros vêem com clareza que o Brasil está em uma rota gradual, mas clara, de convergência para uma economia mais desenvolvida e estável. Os brasileiros ? por serem bombardeados quase que diariamente com notícias de corrupção, falta de avanços em reformas estruturais e por terem vivenciado crises financeiras ? tendem a ser mais reticentes.

O Brasil e os brasileiros devem investir no exterior? Por que e como?

A médio e longo prazo, a diversificação de investimentos ? inclusive geográfica ? é fundamental para reduzir os riscos para qualquer investidor. Por isso, grandes empresas brasileiras investem cada vez mais no exterior. Nos últimos 12 meses, esses investimentos somaram dez bilhões de dólares e a tendência de crescimento é bastante saudável. Para pequenos empresários e investidores, no entanto, ao menos no curto prazo, as perspectivas de investimento no Brasil são tão favoráveis que não são necessários incentivos para uma diversificação geográfica acelerada.

Quais mercados internacionais as empresas brasileiras que trabalham com exportação devem olhar com mais atenção?

Principalmente o mercado asiático, o que mais cresce no mundo. Em segundo lugar, mercados emergentes que têm perspectivas de crescimento muito melhores que os países desenvolvidos. Além disso, o bom desempenho desses mercados deve levar suas moedas a se apreciarem em relação ao dólar, compensando ? total ou parcialmente ? a apreciação do Real em relação ao dólar, que deve continuar. Aliás, nesse sentido, apesar de ter o maior mercado do mundo, as piores perspectivas são de exportações para os Estados Unidos, que atualmente tem as maiores fragilidades da economia mundial (bolha imobiliária e déficits gêmeos) e deve ter baixo crescimento e desvalorização do dólar, dificultando a venda de produtos brasileiros.

A carga tributária ainda é o maior entrave para o crescimento da economia brasileira? Como cada um de nós pode contribuir para reverter esse quadro?

Sem dúvida, a carga tributária ainda é o maior entrave para o crescimento da nossa economia. Enquanto nos países emergentes ela é de 20% do PIB, aqui chega a 34%. Os empresários brasileiros precisam pressionar fortemente o governo para reduzir seus gastos, especialmente com aposentadoria do funcionalismo público, liberando verbas para redução da carga tributária e expansão dos investimentos em infra-estrutura.

No próximo mês, você abrirá o Fórum Internacional da ExpoVendaMais. O que os participantes podem esperar de sua palestra?

Entenderem melhor as mudanças mundiais, como elas afetarão seus negócios e quais oportunidades e riscos serão criados.

Não perca! De 04 a 06 de outubro, acontece a segunda edição da ExpoVendaMais, o maior e mais completo evento de vendas do Brasil, no Estação Embratel Convention Center, o mais moderno centro de convenções da América Latina, em Curitiba, PR. Visite o site: www.expovendamais.com.br

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