Em um ano marcado por incertezas e forte volatilidade, o trabalho dos analistas ficou difícil. Como traçar cenários e apontar boas opções de investimento em meio a uma das maiores crises da história? Para o gerente de pesquisa da Planner Corretora, Ricardo Martins, conservadorismo é a chave do sucesso. Foi apostando em empresas de primeira linha e não fugindo dos padrões que ele ganhou o prêmio de melhor analista de ações de 2008, em concurso promovido pelo Guia Exame de Investimentos Pessoais. O levantamento para eleger o vencedor foi realizado pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV) com base em informações da consultoria Thomson Financial. A FGV analisou 1.097 recomendações e 1.402 preços-alvo elaborados por 176 analistas de 24 corretoras, entre julho de 2006 e junho de 2008. O estudo deu origem a um ranking que teve Ricardo Martins na liderança com uma margem de acertos de 90,8%. Conversamos com exclusividade com o analista do ano, que nos deu dicas e recomendações de investimento para 2009. Confira!
Você venceu o concurso por ser conservador. A receita para alcançar bons resultados é ser conservador?
Com certeza. Nesses períodos de volatilidade e muitas dúvidas, o lado conservador pesa muito. O investidor deve buscar empresas que já estejam consolidadas em seus setores e que tenham um bom histórico de relacionamento com o investidor. Ele não deve assumir posições em setores que estão surgindo agora ou que despontaram recentemente, afinal, há um grande processo no mercado em se adaptar a esses setores e ao negócio em si. Empresas de construção civil e tecnologia da informação, por exemplo, entraram recentemente no mercado e a análise conservadora foge desses setores. O conservador busca o que já conhece, empresas que já sabe o comportamento em Bolsa. Foram várias crises ao longo dos últimos anos, e isso faz com que você acabe conhecendo os portos seguros e o que pode oscilar com menor intensidade.
Como sua análise é feita?
É a análise que todo analista aprende na vida. Faço um levantamento da empresa, procurando verificar detalhes de seu passado. Conhecendo o histórico da organização, como contas patrimoniais, demonstrativos de resultados e desempenho em Bolsa, obtenho todo um padrão de histórico de análise. Dessa forma, é possível chegar a um modelo de precificação de projeção de resultados que pondero com as premissas que também envolvem mercado externo, como taxa de câmbio, risco país e inflação. Jogo tudo isso em um modelo de valuation e depois analiso criticamente esses números. Aqui na Planner, fazemos as análises partindo dos princípios fundamentalistas. Baseado em projeções de resultados, chegamos a um preço justo, que, devido à crise, estão inviáveis hoje, mas sabemos que o potencial existe. Se a questão dos fundamentos internacionais estivesse boa, saberíamos que nossas estimativas seriam válidas e poderiam ser atingidas. Hoje, continuamos acreditando que os preços-alvo são válidos, embora a dificuldade, em função do cenário externo, acabe impedindo que se chegue a esses níveis de preço. Por isso, a análise passa a ser mais criteriosa, principalmente no dia-a-dia, em que qualquer notícia acaba mexendo com os mercados internacionais e refletindo internamente.
Esse é o momento de o brasileiro entrar na Bolsa?
Em minha história sempre procurei dizer o seguinte: quando você assiste nos telejornais que a Bolsa é o melhor investimento já não é o melhor momento para entrar, afinal, é um período de alta que pode se inverter no curto prazo. São em grandes baixas que se fazem ótimas compras, ainda mais com os bons fundamentos da nossa economia. A maioria de nossas empresas está muito bem, está atenta à Governança Corporativa, sustentabilidade do negócio, novas tecnologias, etc. Esse é o grande momento de entrar na Bolsa ou investir ainda mais.
É possível que a Bovespa ultrapasse a barreira dos 70 mil pontos novamente?
Não. A crise de confiança foi intensa, gerando um movimento de venda descabido e acentuado, penalizando demasiadamente as cotações e levando o Índice Bovespa ao nível de 33,2 mil pontos. Mesmo com as medidas adotadas pelos bancos centrais mundiais e a rapidez com que nosso aplicou medidas para prover liquidez e linhas de crédito para nossas empresas, o cenário ainda continua delicado, pois as medidas minimizaram a crise de confiança, mas ainda temos os indicadores econômicos determinando uma recessão norte-americana e uma desaceleração mundial, o que não permite pensarmos em 70 mil pontos.
Como você enxerga o investidor brasileiro?
A maioria veio para o mercado em um momento de alta, afinal, foram cinco anos de altas consecutivas. Dos investidores que permaneceram na Bolsa, acredito que boa parte está insatisfeita ou mesmo chateada com o que anda acontecendo. Acho que falta um pouco de definição de satisfação. Hoje, o investidor precisa estar ciente do que está assumindo em termos de Bolsa. Se investiu recursos de investimento, embora o mercado tenha revertido, ele terá a recuperação desses valores em um futuro próximo. O que falta para a maioria é definir o perfil, pois vê que seu papel está subindo x %, acha que vai subir mais e acaba perdendo o lucro. Muitos investidores estão sofrendo por terem vivido no melhor dos mundos. Eles não foram orientados sobre alguma perspectiva de que esse cenário pudesse mudar, como ocorreu. A dica é: quando você entrar na Bolsa, acredite no negócio da empresa e compre em momentos adequados.
Como se portar diante do efeito ?manada??
É a questão da definição de perfil. Se o investidor é de curto prazo e comprometeu recursos que não deveria, vai atuar como manada mesmo, porque se deixar para sair amanhã pode perder mais ainda. Se o perfil for de especulador, ele realmente está numa situação desconfortável. Vamos supor que um jovem que receba recursos do pai para pagar a faculdade viu que a queda de hoje pode se traduzir numa correção amanhã. Então, pega o dinheiro que ía pagar a faculdade e investe. Pode ser uma estratégia ruim, pois ele realmente está com o perfil de especulador e se sua estratégia estiver errada, vai estar comprometido. Agora, se em vez de colocar na poupança o dinheiro que sobrou no fim do mês, comprar uma ação da Petrobras com preço depreciado e fizer isso mensalmente, com certeza, ele terá definido um perfil de investidor, pois estará comprando excelentes papéis em momento de tendências desfavoráveis, mas a preços convidativos. Portanto, esse investidor não precisa se preocupar, visto que investiu em uma grande empresa que distribui resultados regularmente através de dividendos, como muitas outras. Dessa forma, ele pode construir sua carteira sem se preocupar com altos e baixos. O investidor que tem visão de longo prazo está tranqüilo. Por mais que a Bolsa caia, não estamos numa situação de quebra, como alguns grafistas têm comparado com o crash de 1929. Hoje, temos todo um sistema como bancos centrais e políticas econômicas muito mais dinâmicas. O Fed poderia muito bem ter dito para o Lehman Brothers ?pode ficar tranqüilo que eu resolvo?, mas aí viraria uma festa.
Qual o conselho que você dá para o investidor?
O investidor tem de ter consciência que Bolsa é uma renda variável e que não vai ficar rico nem pobre da noite para o dia. Ele tem de investir aquele recurso que guardaria na poupança em grandes corporações. O momento é bom, os preços estão convidativos e a Bovespa está barata e atraente. É importante que o investidor tenha consciência de que a Bolsa não é uma jogatina, mas um canal de captação das empresas que buscam recursos para alavancar a produção, gerar empregos e pagar tributos. Ele deve investir em grandes organizações, e não se deixar levar pelas conversinha de bar, sempre procurar orientação de especialistas e definir se quer atuar como investidor ou especulador. Se for especular, precisa definir margens de perdas e ganhos e, acima de tudo, estudar as empresas e o mercado, e não entrar na onda de noticiário e papo de amigos.
Onde investir?
Pedimos para Ricardo falar sobre os setores que acredita que deverão se destacar positiva e negativamente. Confira:
Bancos ? Analisando os atuais níveis das taxas de juros, aponto o setor bancário como uma importante opção de investimento, pois apesar de todo estreitamento de liquidez que o setor atravessa internacionalmente por conta da crise, a rentabilidade dos bancos vai continuar atrativa e eles sempre foram bons pagadores de dividendos. E aí, Bradesco e Itaú têm uma questão diferenciada dos demais, que é o pagamento mensal.
Energia elétrica ? Sofremos com problemas de infra-estrutura, e a energia elétrica tem cada vez mais demandada não só pelo crescimento da população em si, do setor comercial, industrial e empreendimentos residenciais, mas também pela necessidade de que o Brasil mantenha crescimentos importantes nos próximos anos. Dessa forma, o setor energético é um porto seguro.
Commodities ? Empresas de commodities, que respondem a 46% do total das listadas na Bovespa, também são boas opções. Aqui, podemos ressaltamos Petrobras, Vale e algumas siderúrgicas como a CSN, que podem trazer ganhos extraordinários com a venda de minas. Vale e Petrobras são empresas que têm grande peso no Ibovespa e ainda propiciam ao investidor a atuação em mercados de derivativos como o de opções. São papéis que, embora estejam sofrendo com as quedas das commodities, têm bastante liquidez.
Varejo ? O nível de endividamento do brasileiro está alto e ele tende a manter dívidas. Por exemplo: com o 13º salário, em vez de quitar dívidas, ele continua consumindo, e com as despesas de início de ano como IPTU, IPVA e escola, vai ficar numa situação desconfortável. Por isso, vejo o varejo com dificuldades. O setor vai continuar vendendo bem, mas com margens mais apertadas. Embora mantendo lucros, apresentará resultados mais justos e margens menores, pois o endividamento do consumidor e a alta dos juros forçarão uma retração no consumo.
Construção civil ? Pela dificuldade de buscar novas captações e sistemas de financiamento, se financiarem, pode haver uma barreira para as empresas com maior dificuldade de captação, fazendo com que os investimentos que estavam previstos talvez não aconteçam na sua plenitude. Os papéis estão tão depreciados que não têm muito para cair.
Colaboração: João Guilherme Brotto


