Sentimento de culpa sadio x doentio

O sentimento de culpa moral aparece quando um indivíduo se dá conta de que seu comportamento feriu outra pessoa. Note-se que, nesse caso, o sentimento é sadio porque possibilita pedir perdão e remediar o erro cometido. O sentimento de culpa moral aparece quando um indivíduo se dá conta de que seu comportamento feriu outra pessoa. Note-se que, nesse caso, o sentimento é sadio porque possibilita pedir perdão e remediar o erro cometido. A tomada de consciência do erro cometido permite melhorar a atitude de quem errou. Por isso, quem não se conscientiza dos comportamentos inadequados continua errando.

Por outro lado, o sentimento de culpa doentio é uma forma de sabotagem da própria personalidade. Trata-se de uma angústia perseguidora, desencadeada por exigências e imperativos irracionais de ordem (pseudo) culturais, ética e religiosa.

Portanto, é oportuno aprender a distinguir um sentimento de culpa sadio de um sentimento de culpa doentio e aprender a administrá-los de forma construtiva e fecunda, objetivando reforçar a auto-estima.

1. Características dos sentimentos de culpa sadios

– Confrontam o comportamento concreto, respeitando a bondade da pessoa.

– Não se centram demais no comportamento, mas no dano causado ao outro, gerando o desejo de reparar o mal cometido.

– São compatíveis com a auto-estima. Podemos nos sentir sadiamente culpados e continuar nos amando.

2. Características dos sentimentos de culpa doentios

– Geram auto-agressão e autodesprezo, produzem mensagens acusatórias, condenatórias, punitivas e generalizantes, atingindo a pessoa em sua globalidade, diminuindo-lhe a auto-estima.

– Estimulam comportamentos compulsivos e compensatórios que, a curto ou longo prazos, se tornam nocivos. Por exemplo: comer ou beber demais, consumir drogas, comprar compulsivamente, fazer sexo sem amor, desfrutar do sexo transgressivo pela simples busca de prazer.

– Bloqueiam as tentativas pessoais de mudar e melhorar.

– Podem ser uma tentativa de expiar o mal produzido nos outros através do sofrimento, supondo que os sofrimentos pessoais poderiam reparar o mal cometido aos outros.

– Induzem ao medo de uma possível punição divina.

Infelizmente uma errônea interpretação de certos princípios religiosos se transformou numa fonte fecunda de produção de sentimentos de culpa, gerando graves danos psicológicos. Alguns autores demonstraram que auto-estima está intimamente ligada à idéia de Deus. Se um indivíduo julga que Deus é bom e que perdoa, ele terá uma maior auto-estima. Se ele pensa o contrário, sua auto-estima é menor. Como afirma Anthony de Mello: ?O Deus que negocia com o terror é um déspota. Ajoelhar-se diante dele é coisa de velhaco e não de crente?.

Os sentimentos de culpa doentios devem ser identificados e resolvidos para que não se perpetuem, causando perda de energia e, como já vimos, para que não nos sintamos prisioneiros de uma situação sem saída.

Quando o sentimento de culpa é sadio, é oportuno apressar-se com uma ação reparadora a fim de remediar o mal provocado. Se isso não for mais possível, é recomendável desculpar-se de coração pela dor provocada. Por exemplo: André traiu a mulher e a abandonou com um filho de dois anos. Depois de algum tempo, percebendo o mal cometido, se pergunta: ?Como posso remediar o que fiz?? Nesse particular, ações que lesaram nossa auto-estima necessitam de ações diametralmente opostas.

Maria Cristina Strocchi é doutora em psicologia e autora do livro Auto-estima ? se não amas a ti mesmo, quem te amará? (Editora Vozes). ?Existe, sem dúvida um remédio para cada culpa: reconhecê-la? ? Franz Grillparzer

Conteúdos Relacionados

Rolar para cima