Ser competente é suficiente?

A competência tem sido bastante usada como parâmetro para as empresas definirem e avaliarem a capacidade de seus funcionários. Tanto que criou-se até uma nova metodologia, a gestão por competências (que estimula o envolvimento e o desenvolvimento das pessoas na organização). Por Dieter Kelber

A competência tem sido bastante usada como parâmetro para as empresas definirem e avaliarem a capacidade de seus funcionários. Tanto que criou-se até uma nova metodologia, a gestão por competências (que estimula o envolvimento e o desenvolvimento das pessoas na organização). Mas somente a competência é suficiente para tornar uma profissão, uma equipe, uma atividade ou um empreendimento bem-sucedidos? Afinal, o que é competência?

Uma definição correta pode ser a transformação de dados em informações, que, aplicadas à geração de resultados, levam ao conhecimento. Algo como saber da existência da farinha de trigo, do ovo, do fermento, do açúcar, do leite e da manteiga (os dados), combiná-los de uma certa forma através de uma receita (a informação), fazendo um bolo. Assim, se você praticar um pouco, passa a saber fazer um bolo. Então: conhecimento = informação + prática.

Mas será que você sempre saberá fazer um bom bolo? Sem estar solado ou queimado? Muito doce ou sem gosto? Muito molhado ou seco? O que será que leva pessoas com os mesmos conhecimentos produzirem resultados tão diferentes? Por que não têm a mesma competência? Aqui entra uma outra variável importante, a habilidade. A habilidade de adquirir os dados. De transformá-los em informação. De transformar a informação em conhecimento. De desenvolver a competência para fazer bolos. Para isso, você precisa ter a habilidade específica que ela pede.

E como surgem as habilidades? Como se desenvolvem? A maioria das pesquisas parece indicar que você nasce com elas, ou seja, fazem parte do seu DNA. Mas são suas condições histórico-sociais que irão permitir o seu desenvolvimento ou não. Isso é bastante visível nos esportes, principalmente naqueles em que, para o desenvolvimento da habilidade (como o iatismo ou o automobilismo), são necessárias condições financeiras e de relacionamento que apenas um grupo pequeno da sociedade possui. Ou seja, muitas pessoas têm habilidades que jamais serão percebidas ou desenvolvidas! Neste ponto você pode concluir que: competência = conhecimento + habilidade.

Como aparentemente é possível definir, detectar e medir os conhecimentos e as habilidades necessários para uma tarefa, não é difícil entender porque as empresas estão adotando a gestão por competências como principal metodologia de planejamento estratégico. Mas nada garante que o resultado obtido será o esperado. Primeiro porque nem todas as habilidades (ou características de personalidade) necessárias para cada tarefa são definidas de modo adequado, muito menos mensurável. O segundo motivo é que a fórmula sucesso = competência está incompleta. Essa equação pede mais um componente importante: sucesso = competência + motivação.

O rendimento profissional depende diretamente da satisfação e do interesse com que você se dedica ao trabalho, da sua motivação. Para ser um excelente dentista, por exemplo, você precisa de conhecimento técnico, além de senso estético (habilidade), mas também do interesse em ?fazer bem ao próximo?, um fator motivacional inerente à personalidade. Da mesma forma, por mais habilidoso que seja um jogador de futebol, ele somente será um craque (um profissional competente) se estiver estimulado a jogar em e pelo grupo.

O grande desafio dos líderes e das empresas, portanto, não é apenas estimular o desenvolvimento de profissionais competentes, mas criar um ambiente organizacional capaz de motivar as pessoas que formam sua equipe. Tenha sempre em mente que é assim que se cria uma ?química de relacionamento? que levará a ótimos resultados.

Frase: ?Quem não está satisfeito consigo mesmo, crescerá; quem não está seguro de sua própria retidão, aprenderá muitas coisas? ? Máxima palestina

Dieter Kelber é diretor-executivo, professor e pesquisador do Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual (IADI) e pesquisador do NAIPPE/USP. Homepage: www.iadi.org.br.

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