Um camelô de sucesso

Ele morou na favela e até na rua. Não estudou muito e não tinha nem o que comer. Deu a volta por cima e hoje é o segundo camelô mais famoso do Brasil. Só perde para o Silvio Santos Ele morou na favela e até na rua. Não estudou muito e não tinha nem o que comer. Deu a volta por cima e hoje é o segundo camelô mais famoso do Brasil. Só perde para o Silvio Santos… por enquanto!

Seu nome completo é David de Mendonça Portes. Brasileiro, nasceu em Santo Eduardo, que fica no município de Campos, interior do estado do Rio de Janeiro. Ao todo, sua mãe teve oito filhos: três mulheres e cinco homens. Ele era o quarto da fila.

Até bem pouco tempo, sua vida era muito parecida com a de milhares de brasileiros que nasceram pobres neste país. Pouco dinheiro, pouco estudo, pouca comida, quase nenhuma perspectiva. Só que um dia, tudo mudou. Ele mudou tudo…

Começando do zero

Para contar essa história, é preciso dizer que nada foi fácil desde o início. Seus pais eram cortadores de cana e nenhum dos dois tinha estudo. Escola era pouca. Comida, também. Luxo, nenhum. Mas apesar das dificuldades, eram muito unidos.

Como a vida era dura na roça, ele teve de acompanhar os pais e irmãos na lida desde os dois anos de idade. A família saía toda de casa ainda de madrugada e ia a pé ou de carro de boi para a plantação com o sol ainda bem baixinho. Ele ia no colo da mãe porque ela não tinha com quem deixá-lo, e passava o dia no meio da plantação. Seus irmãos também pegavam no facão, para a família poder cortar o máximo de cana possível, já que o pagamento era por lote.

Um pouco maior, aos oito anos, entrou na escola primária estadual local. Embora a vida tenha exigido que ele dividisse seu tempo entre o roçado e a escola, percebeu que a educação é o que leva as pessoas para frente, que um pouco de educação é muito melhor do que nada.

Um ano depois, seu pai começou a acreditar que era preciso se arriscar um pouco para transformar a situação difícil em que viviam. Mudou-se para o Rio de Janeiro para procurar um emprego e conseguir mais dinheiro do que tirava na roça. Sua mãe ficou com os filhos aguardando o sinal para mudar-se para a cidade grande. Só que esse período mostrou-se ainda mais difícil. Não havia dinheiro para nada.

Os anos passaram e o pai dizia, por carta, que tinha arranjado um emprego e que já tinha até uma casa montada. Um dia, cansada de esperar pelo convite, a mãe perdeu a paciência e, de uma hora para outra, cismou de mudar-se com os filhos para o Rio de qualquer jeito, sem aviso prévio. ?De minha mãe herdei a determinação, a coragem de fazer as coisas, mesmo sem saber o que vai dar no final. Quem fica parado é pedra, que acaba cheia de limo. Gente se mexe. E quando a gente se mexe, as coisas mudam?, diz David.

A viagem foi longa. Sem dinheiro e quase sem ter com que alimentar os filhos, a mãe teve dois sentimentos conflitantes ao chegar em Nilópolis, periferia do Rio: apesar do reencontro, ela descobriu que as informações não eram verdadeiras. Seu marido não tinha emprego, fazia pequenos bicos como porteiro e servente de obra, e muito menos conseguira uma casa própria. Ele morava de favor na casa de seu irmão, Moisés.

Apesar da situação complicada, foram socorridos pela tia de David, casada com Moisés, que providenciou apoio, abrigo e alimentação para os parentes. Dividiu o pouco que tinha com tantos e deu ao seu sobrinho uma das primeiras lições que fariam dele uma pessoa de sucesso: uma família unida é uma base forte. Quando um está mais fraco, o que está mais forte o levanta. É como um ramo de gravetos. Quem tenta quebrar um graveto sozinho, consegue fácil. Mas um monte deles, amarrados e apertados juntos, não quebra nunca.

Inspiração

Nesse período de agruras, todos comiam com dificuldade. Mas uma coisa David aprendeu com a pobreza: reclamar não adianta nada. Fazer cara feia não enche barriga. Para melhorar é preciso trabalhar. Então, ele passou a vender amendoim torrado quente num trem todo verde e azul que circulava no subúrbio do Rio durante a semana. E nos fins de semana, trabalhava com seu irmão João Batista, vendendo laranja nos campos de futebol de várzea.

Essa foi uma fase importante, quando David aprendeu uma segunda grande lição: qualquer pessoa de sucesso tem alguém que é sua fonte de inspiração, alguém em quem se apoiar e de onde tirar forças quando parece que não vai acontecer nada de bom na vida. A pessoa em que ele se inspirou (e se inspira até hoje) foi justamente o irmão João Batista. ?Ele era o mais inteligente da família. Mas foi assassinado, enquanto trabalhava num armazém, poucos meses antes de se casar com a filha do dono do estabelecimento. Ele tinha 20 anos de idade?, fala David, emocionado. ?Mais do que meu próprio pai, João Batista era meu ídolo. Tudo o que faço aprendi com ele. E a ter caráter também?, completa.

Segundo David, João Batista era, por natureza, muito alegre. Se o cliente era simpático ou carrancudo, ele brincava do mesmo jeito. Um carisma como esse só fazia a freguesia aumentar. Por outro lado, muitas vezes ele também pôde acompanhar as vendas de mortadela e lingüiça que seu pai fazia na favela do Esqueleto. Com dois exemplos próximos, viu suas primeiras lições de marketing no comércio integrarem sua vida: a freguesia do pai, bastante objetivo, comprava quando o preço era bom; já a de João Batista, que focava no relacionamento, chegava a esperar por ele antes de ir embora para casa.

Um novo caminho

Embora decidido a vencer, David passou um bom tempo de sua vida meio estacionado, agindo como seu pai. Até que um dia conheceu aquela que seria sua mulher e companheira, Maria de Fátima, que era instruída e professora primária. A partir deste encontro e do casamento, uma nova história começou, com alegrias e muitas dificuldades, pois apesar do esforço de David para dar um certo conforto a Fátima, ele ficou muito tempo desempregado, acreditando até que o melhor para ela era voltar para a casa de sua mãe. Mas ela nunca o abandonou.

A vida de todo mundo é cheia de altos e baixos, mas foi num desses momentos de necessidade extrema que a subida de David começou a se acentuar. Para resumir a situação, ele perdeu um bom emprego exatamente no período em que Fátima estava grávida do único filho do casal, Thiago. Viviam num quarto alugado na favela da Rocinha e o dinheiro foi acabando até que foram despejados. David nunca desistiu de achar um emprego, mas na rua, sofrendo tantas privações, era difícil para ele não aceitar que estava no fundo do poço, embora nunca tenha deixado de ser digno e honesto.

Acontece que só há uma maneira de sair do poço: por cima. Um dia, quando Fátima precisou de um remédio, receberam o equivalente a R$ 12 de um porteiro de prédio para comprá-lo. Nesse momento, David teve um pensamento que mudou sua vida. Se ele comprasse o remédio, continuaria sem recursos e logo precisaria de outra ajuda extrema. Então, decidiu arriscar. Em vez de ir à farmácia, dirigiu-se a um depósito de doces e comprou o que foi possível em doces e balas para vender no sinal de trânsito. Sempre com sorriso no rosto, apesar de muitos ?nãos?, conseguiu superar a inércia: em poucas horas tinha dobrado o capital. Com a metade, comprou o remédio e com a outra metade mais balas. Era o respeito aos seu primeiro capital de giro.

Depois disso, foi só uma questão de tempo. David trabalhou muito até que conseguiu guardar dinheiro para montar uma barraca de camelô, que veio a ficar conhecida como a ?Banca do David?. Começou a ganhar tanto dinheiro que desistiu de procurar emprego. A partir daqueles primeiros conceitos de marketing que aprendera na vida, esbanjando simpatia, viu sua freguesia aumentado todos os dias. Da sua própria cabeça, elaborou ações de vendas e marketing que muitos acreditavam próprios apenas de grandes empresas. Era a aplicação do bom senso em gestão num pequeno e próspero comércio. Deu resultado. Foi reconhecido e ainda tornou-se famoso, virando notícia até em programas como o Jô Soares Onze e Meia e o Fantástico, ou mesmo em revistas como Exame e Época. Virou até consultor e palestrante, requisitado em empresas como 3M, Basf, Embratel, Grupo Votorantim, Volkswagen e muito mais.

Em seu novo livro, lançado em novembro pela editora Futura, David conta toda a sua história em detalhes. A história pessoal e as dicas de marketing para que qualquer comerciante ou empresário possa aplicar em seu dia-a-dia. Conta como usou a criatividade, a determinação e a fé para dar a volta por cima e mudar seu destino. Seu exemplo mostra que quem toma as rédeas da própria vida e não esmorece com os obstáculos, tem tudo para vencer. Como costuma dizer nas centenas de palestras e entrevistas que dá pelo Brasil e pelo mundo, ele criou valor do nada e venceu. Você também pode!

Frase: ?A experiência é uma chama que só ilumina queimando? ? Benito Caldas

Para Saber Mais: David ? Uma lição de vida e de marketing, de David Fortes (Editora Futura). Contatos com o autor: (21) 2265-5010. E-mail: [email protected] Homepage: www.bancadodavid.com

Quem tenta quebrar um graveto sozinho, consegue fácil. Mas um monte deles, amarrados e apertados juntos, nunca são quebrados O problema não é cair. O problema é cair e não saber levantar. Quem cai e levanta sempre pode começar outra vez

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