Um caso de cadeia

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Li há tempos, em um jornal de grande circulação em todo o país, uma notícia com a seguinte chamada: “MAU VENDEDOR LEVA BODE DE ””””PRÊMIO”””””.

Ao longo da matéria, o autor comentava sobre uma empresa do Amazonas que obrigava os vendedores que não atingissem suas cotas de vendas mensais a levar para casa um bode, sendo que esses “premiados” ainda eram obrigados a alimentar o animal durante o período em que ficavam com ele, porque se o mesmo, ao ser devolvido, estivesse mais magro do que quando fora levado haveria outra punição para o vendedor.

Uma das vitimas dessa “coisa” (jamais poderia chamar algo assim de empresa) denunciou para a Justiça do Trabalho esse procedimento, afirmando ainda que na “promoção motivacional” anterior, os vendedores que não conseguissem atingir as cotas, eram obrigados a passar pelo vexame de dançar em público a dança da garrafa.

O “irresponsável” pelas vendas ainda afirmou na matéria que isso era feito apenas como brincadeira, visando incentivar os funcionários.

Os funcionários fizeram greve na porta da tal “coisa”, tentando negociar com o “dirpone” da mesma (o jornal publica o nome desse irresponsável, mas me nego a pronunciá-lo aqui). Não obtiveram sucesso, pois ele não os atendeu.

A denúncia foi formalizada junto ao sindicato e a vitima dessa “coisa” levou consigo o bode que tinha que alimentar. Não é um caso de policia? Não é revoltante? Qual será o conceito de vendedor que esse cidadão(?) tem na cabeça? Nem na escravidão se tem notícia de um procedimento sequer parecido, e o infeliz ainda declara “que era só uma brincadeira feita para incentivar o vendedor”. Brincadeira é dar poder de mando a um ser humano (será que é?) como esse.

O que será que esse “dirpone” entende por motivação? Será que se o próprio filho fosse vendedor ele faria uma coisa dessas? Como será que o vendedor dessa empresa trata os seus clientes? Qual é o conceito de vendedor que ele tem na cabeça? Qual é a qualidade das vendas que uma “coisa” dessas pode esperar? Como será uma reunião de “dirpones” dessa “coisa”? Eu imagino que deva ser mais ou menos assim:

– Bem, o que faremos este mês para “motivar” os vendedores que não atingirem as cotas?

– Acho (dirá algum puxa-saco de plantão, porque sempre tem um) que nós deveríamos fazer os homens se vestirem de “drag queens” e as mulheres deveriam fazer um strip-tease.

– O que o senhor acha, chefinho?

– Acho ótimo e também acho que nós deveríamos gravar esse espetáculo para exibirmos todos os dias quando os vendedores voltarem do trabalho. Alguém aqui tem uma câmera?

E o puxa-saco diria imediatamente:

– Ah! Eu tenho, chefe, deixa comigo.

– Então, está decidido.

Será que a nossa profissão será ainda por muito tempo dirigida por pessoas tão medíocres? Quando será que nós, vendedores, vamos nos revoltar contra coisas desse tipo e nos indignar coletivamente? Acho que os vendedores das outras empresas sediadas na cidade dessa “coisa” deveriam ter se unido para fazer uma manifestação em frente à sede, revoltados com essas atitudes vexatórias para todos nós.

Tenho certeza absoluta de que muitos dos que estão lendo este artigo agora estão pensando que o caso não é pra tanto e que o melhor mesmo é deixar pra lá, pois isso não prejudica ninguém, a não ser aqueles infelizes e suas famílias, que têm de passar por esses vexames. Mas é justamente isso que não pode continuar acontecendo. É essa passividade que me revolta. Precisamos ter orgulho da nossa profissão e defendê-la coletivamente sempre que algo semelhante acontecer e boicotar essa “coisa” e esses “dirpones” até ela fechar definitivamente e eles serem banidos do nosso mundo das vendas.

Você já pensou se esse “dirpone” faz uma coisa dessas com as secretarias, por exemplo? Ah! Eu não tenho a menor dúvida que haveria uma união delas boicotando esse procedimento e o seu infeliz autor. Mas como se trata de vendedores, nós achamos que não é caso para tanto e que devemos deixar pra lá.

Essa falta de orgulho e de determinação é que acaba nos levando a ter a péssima imagem que infelizmente carregamos conosco, pois todos sabemos o que as pessoas pensam quando se diz: “Sou vendedor”.

Senhores vendedores, convido-os a não aceitar passivamente maus-tratos e ações vexatórias como essas. Temos valor… E muito! Temos de aprender a nos dar esse valor, pois se é verdade que precisamos da empresa, também é verdade que ela precisa de nós.

No caso citado, se todos os vendedores se juntassem e boicotassem essa coisa , ela fecharia imediatamente. E seria muito bem-feito… Mesmo que não conseguíssemos colocar esse “dirpone” na cadeia, ao menos teríamos feito com que ele nunca mais abusasse das pessoas que trabalham seriamente para sustentar suas famílias.

Quantas empresas existem que só fazem enganar os seus vendedores e que prometem uma porção de coisas até que as vendas aconteçam e, depois, lhes passam a perna? E elas ficam aí, impunes, repetindo esses procedimentos sem que nada lhes aconteça. Quantas empresas mudam as comissões dos vendedores depois que as vendas acontecem, afirmando que eles “estão ganhando muito”? E nada acontece. Até quando? Até quando vamos continuar sendo tão “espertos” para trabalhar e tão inocentes ou acomodados, deixando que injustiças continuem sendo cometidas contra nós sem que nada seja feito para acabar ou diminuir essas atitudes desonestas?

O que aconteceu com o “dirpone” dessa “coisa” lá do Amazonas? Isso eu posso adivinhar e você também: absolutamente nada. Ele vai continuar expondo colegas nossos a vexames desse tipo e nós vamos continuar aceitando. Até quando?

Eduardo Botelho é consultor e diretor da Treinamento Eficaz S/C Ltda. Realiza cursos de vendas para iniciantes e demais níveis vendedores, supervisores, gerentes e diretores comerciais. Para contatá-lo, ligue para (0** 11) 3672-7581

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