Um toque de mágica: como a Disney chegou aos US$ 43 bilhões

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É isso mesmo. Começando com um simples camundongo, o que era apenas mais uma empresa de entretenimento transformou-se num gigante descomunal, com taxas de crescimento e lucratividade excepcionais.

Só para se ter uma idéia, a Disney Corporation tem os desenhos animados, filmes (seus últimos sucessos foram O Rei Leão, Pocahontas e agora O Corcunda de Notre Dame, além de Pulp Fiction e Toy Story), parques de diversão, parques temáticos, times esportivos, estádios, editoras de revistas, cadeias de rádio, a rede de TV americana ABC, a ESPN, lojas e mais uma infinidade de pequenos investimentos.

O mais interessante de tudo, porém, é escutar seu CEO, Michael Eisner, explicar o porquê de tanto sucesso. Não existe nada de milagroso, e muito menos de mágico. São pequenas coisas que se somam, pequenas regras que são respeitadas, pequenos detalhes que são tratados com a máxima atenção. São gotas de sabedoria empresarial que podem ser muito bem assimiladas por executivos de qualquer lugar do mundo, trabalhando em empresas de qualquer porte. As dicas são estas:

Administrar o sucesso:
Administrar o sucesso é tão ou mais difícil do que administrar o fracasso. É vital para uma empresa que esteja ganhando dinheiro não perder o foco, diversificando para áreas que não têm nada a ver com a missão principal da empresa. Administrar o sucesso também significa controlar egos, ficar de olho nos custos e, principalmente, não se acomodar. O sucesso amanhã depende do investimento feito hoje. Acomodar-se ou ficar arrogante é mortal.

Mantenha seus olhos na bola:
Quando perguntaram a Babe Ruth lendário jogador de beisebol, como é que ele fazia para agüentar a pressão de uma final, com um estádio inteiro lotado urrando e gritando, com milhões de espectadores torcendo pela televisão – e mesmo assim fazer o home run vencedor – como é que ele conseguia. Babe Ruth simplesmente respondeu: “Eu não sei direito. Eu só sei que eu não tiro os olhos da bola”. Na verdade, a maioria dos negócios é bem simples – nós é que complicamos. Por isso, nunca esqueça: nos momentos decisivos, não tire os olhos da bola.

Inovação constante:
Empresas de sucesso, como 3M, Johnson & Johnson e Microsoft, têm um ritmo constante de inovações e lançamentos. Cerca de 20% de seu faturamento geralmente vêm de produtos ou serviços novos. Nesse ritmo, elas se renovam completamente a cada 5 ou 6 anos, Já na Disney, esse número está mais para 90%. No ano passado, foi feito um novo lançamento ou mais durante todas as semanas do ano. É uma maneira radical de crescer – e funciona.

Abertura:
Na verdade, a Disney vive de boas novas idéias, e já aprendemos que idéias vêm em todos os tamanhos e formas, e saem de lugares que você nem imagina. Por isso, na Disney a criatividade é estimulada livremente. Para que esse fluxo constante de novas idéias e criatividade via brainstorming possa fluir livremente, foi criado um ambiente onde as pessoas se sentem seguras ao errar. Erros não são apenas aceitos: são estimulados, discutidos, analisados e utilizados produtivamente para crescer. A taxa de sucesso de qualquer empresa está visceralmente ligada à sua taxa de fracassos. Como disse Wayne Gretzky,o melhor jogador de hóquei da história: “Você erra 100% dos tiros a gol que não faz”. Outra coisa que é feita é o Gong Show, uma reunião realizada a cada 4 meses onde qualquer pessoa, funcionário ou não, pode apresentar a sua idéia perante os membros do conselho da Disney. O nome Gong Show vem de uma tradição implantada pelo próprio Walt Disney, que soava um gongo quando gostava ou não de uma idéia.

Aparecem geralmente cerca de 40 pessoas para fazer apresentações, a maioria de pessoal interno, e credita-se a essa reunião a origem da maioria dos sucessos que temos visto por aí.

Follow through:
Veja bem, é follow through e não follow up, o que não é apenas uma diferença semântica. A maioria das pessoas e das empresas têm boas idéias constantemente. Infelizmente, fica só nisso: boas idéias. O pessoal da Disney se orgulha de transformar as idéias em ação. A execução é, muitas vezes, até mesmo mais importante do que a própria idéia em si. Executivos de sucesso não cobram apenas: criam equipes e o ambiente ideal para que a idéia saia do papel e se transforme em resultado. Qualquer um pode cobrar – mas garantir a execução é o que realmente interessa.

Uso limitado de pesquisa:
Michael Eisner é bem claro neste ponto: “Não sou um discípulo da pesquisa… a não ser, é claro, quando os resultados das pesquisas concordem comigo”. É necessário valorizar um pouco mais o feeling, a intuição de quem está no negócio. Por isso é tão importante estar cercado de pessoas competentes, pois é através de muita conversa que as opiniões vão se moldando e o cenário vai ficando menos nebuloso. Pesquisas podem ser feitas sobre coisas que já aconteceram – mas nenhuma pesquisa com clientes é melhor do que um teste real de mercado.

Sinergia:
Principalmente em empresas com vários setores e divisões, existe uma tendência de deixar de trabalhar em torno de um objetivo comum, e passar a buscar resultados para aquele setor isoladamente. É um erro. Na Disney, todos os funcionários da empresa sabem de um lançamento com bastante antecedência, para que cada divisão ou departamento possa promover ou explorar ao máximo seu potencial, além de poder fazer os ajustes necessários para se adaptar à nova realidade.

Parceria:
Seja com a Blockbuster ou o McDonald””””s, a Disney faz questão de trabalhar constantemente com parceiros de sucesso em áreas correlatas à sua. É uma atitude muitas vezes ousada de propor trabalhos em conjunto, e não apenas ficar esperando passivamente que algo aconteça. Como sempre, os parceiros escolhidos são aqueles que podem somar e agregar valor à marca Disney, além de alavancar novas vendas e novos mercados. Como já disse um filósofo: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”.

Rejuvenescimento:
Ao contrário do que possa parecer, isso não significa contratar somente jovens, muito pelo contrário. O que Eisner chama de rejuvenescimento é a troca constante de postos (a cada 5 ou 7 anos) de executivos-chave na empresa. É para evitar o acomodamento, mas também para dar à diretoria uma visão total da empresa, que não é conseguida analisando-se relatórios em salas de reunião. É como se fosse um programa constante de trainees – só que os trainees são os próprios executivos da empresa. Como diz um ditado oriental: “Se você está plantando para 1 ano, plante arroz. Se você está plantando para 100 anos, plante gente”. Ao promover o cross training entre seus principais diretores, na verdade, o que a Disney está fazendo é plantando gente – preparando-se para mais 100 anos de sucesso.

Arriscar constantemente:
Sucesso é um fracasso que deu certo. Quem quer se manter no topo tem que estar constantemente se arriscando. Isso não é apenas blábláblá para se fazer de macho em reunião, ou para tentar impressionar a família. Quer dizer que, como Evander Holyfield, você deve estar disposto a entrar no ringue para enfrentar Mike Tyson. É a única maneira de alcançar a glória – e, principalmente, manter-se lá. Quem não agüenta a pressão ou tem medo pode ter sucesso – mas é um sucesso medíocre e instável. Pense nisso: você subiria no ringue?

Um pouco mais sobre Michael Eisner
Fazendo a pesquisa para escrever este texto, achei uma carta do Eisner para os acionistas na homepage da Disney (www.disney?com) comentando o ano que passou. Traduzi alguns trechos que achei que podiam ser do seu interesse:

. “Nosso objetivo é aumentar a riqueza de nossos acionistas. Nós devemos fazer isso, contanto sem nunca esquecer nossa responsabilidade para com os membros do nosso grupo, sem nunca esquecer as comunidades que servimos e sem nunca esquecer o alto padrão de qualidade que guia nosso trabalho. Devemos sempre operar de maneira ética, sem nunca apelar para expedientes escusos ou caminhos tortuosos.

. Nosso objetivo é aumentar a produtividade criativa através de trabalhos superiores. Baseamo-nos na convicção de que fazer o melhor e estabelecer os padrões mais altos leva aos melhores resultados, e que atalhos levam a lucros também menores. A pressa, a corrida pela mediocridade, pelos ganhos de curto prazo e a aceitação do mínimo denominador comum não funciona para nós. Nós acreditamos que temos a obrigação de manter a tradição da nossa empresa.

. Porque muitas outras empresas e indivíduos podem não acreditar nos mesmos valores que nós, ou porque possam estar interessados por lucros de curto prazo em que nós não estamos, geralmente desconfiamos de joint ventures e associações.

. Somos fundamentalmente uma empresa de operações, operando a Marca Disney no mundo inteiro – mantendo-a, melhorando-a, promovendo-a com bom gosto. Nosso tempo deve ser investido assegurando que a Marca nunca escorregue. Ela pode ser renovada e nutrida. Podemos fazer experiências e brincar um pouco com ela, mas nunca diminuí-la. Outros tentarão mudá-la, tanto gente de fora quanto de dentro. Devemos resistir. Nós não somos uma moda passageira. Os produtos e o nome Disney sobrevivem a qualquer tipo de moda.

. Devemos nos concentrar na liderança criativa. Devemos jogar a mediocridade fora. Nossos únicos critérios de escolha para novos produtos devem ser a excelência e a viabilidade financeira. Não nos dedicaremos a nada que seja barato e na média ou caro e na média. A média é horrível. Não devemos, porém, nos dedicar a qualquer novo empreendimento, independentemente do seu tamanho, a não ser que tenha a promessa de um alto potencial lucrativo”.

Este texto foi editado originalmente para os assinantes do Fax: Venda Mais. Trata-se de uma coluna semanal escrita pelo editor Raúl Candeloro, enviada semanalmente para os seus assinantes via fax ou correio. Se você quiser fazer a sua assinatura mensal do Fax: Venda Mais, no valor de R$ 17,00, e passar a recebê-lo semanalmente, ligue para (041) 336-1613 e fale com Carla ou Alessandra.

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