Capitalizando o fracasso

Nossos critérios de avaliação de resultados precisam ser reavaliados. Conceitos como “sucesso e fracasso”, “derrota e vitória”, “sorte e azar”, “felicidade e prazer”, “esforço e realização” – precisam ser considerados à luz de outras variáveis – tais como tempo, conseqüências, emoções e resultados. Jesus morreu crucificado, um fracassado completo aos olhos da sociedade – e sua doutrina transformou o mundo. Van Gogh morreu sem vender seus quadros e é um dos mestres da arte ocidental. “O Rei da Vela”, peça que Oswald de Andrade escreveu em 1937, só veio a ser encenada em 1967 – trinta anos mais tarde – e ditou novos rumos ao teatro brasileiro. Tiradentes foi derrotado, Mauá morreu falido – e todos reconhecem a influência de ambos sobre a posteridade. Antes de acender uma lâmpada, Thomas Edison ligou dez mil vezes o interruptor. Ridicularizado, reconhecia a utilidade de cada apagão: “Agora já sei mais um modo de não fazer a lâmpada”. Pintores sem mãos pintam com a boca e os pés. Impossibilitado de tocar com a direita, o pianista João Carlos Martins grava com a esquerda.

Nossos critérios de avaliação de resultados precisam ser reavaliados. Conceitos como “sucesso e fracasso”, “derrota e vitória”, “sorte e azar”, “felicidade e prazer”, “esforço e realização” – precisam ser considerados à luz de outras variáveis – tais como tempo, conseqüências, emoções e resultados.

Surge uma cara nova na TV e alguém diz: – “Puxa, que cara de sorte! Fez sucesso de uma hora para outra, acertou de primeira!” Aí assistimos a uma entrevista da dita cuja “cara nova” e ficamos sabendo que a exposição na mídia, finalmente alcançada, é resultado de alguns anos de carreira obscura – fruto de esforço e muito trabalho – que veio depois de muitas privações. Para quem vê depois, tudo aconteceu “de repente, graças a um golpe de sorte” – nem parece que o sucesso chegou depois de uma série de tentativas – umas bem, outras mal sucedidas.

O sucesso nos ensina muito pouco, temos muito mais a aprender com o fracasso. Quando tudo dá certo, sabemos apenas que tudo deu certo – o que não nos torna aptos a repetir a performance em circunstâncias diferentes. A experiência frustrada nos induz à reflexão crítica sobre o processo. Verificando onde erramos, aprendemos muito mais sobre a maneira certa de fazer as coisas.

Ter experiência é ter errado muitas vezes. Ter sabedoria é ter aprendido com esses erros.

O fracasso tempera a personalidade. Aguça a autocrítica e desenvolve a humildade – qualidades importantes na formação de um vencedor. São as quedas que nos dão a exata dimensão do desafio de andar. Aquilo que é muito fácil não traz desafio, nem mérito. Só nos sentimos vitoriosos quando fazemos algo difícil de conseguir. Não existe vitória em escovar os dentes, a menos que se tenha que fazê-lo com os pés – e existem pessoas que conquistam esta vitória todas as manhãs – por necessidade.

Quanto maior a dificuldade, maior a sensação de sucesso. “Ganhar de virada é mais gostoso”, dizem os fanáticos por esportes. A conquista de um título é valorizada pelo empenho e qualidade dos adversários.

Largar em último lugar e chegar em primeiro é simplesmente o máximo. Não é à toa que a multidão tende sempre a torcer pelo mais fraco. A luta de Davi contra Golias teria ficado na história se Golias tivesse vencido?

Erros e acertos, sucessos e fracassos, fazem parte de um processo de aprendizagem – através do qual nos preparamos para enfrentar situações novas – e tomar decisões acertadas, que nos levarão a novos sucessos. Portanto, meus amigos, benditos sejam os erros. Que venham os fiascos! Pois sem eles não haveria acertos. Toda experiência é lição. Ninguém chega a um grau consistente de acertos a não ser pela via do erro. Se chegasse, seria anjo e não homem… ou mulher, que – segundo a Bíblia – é o homem versão 2.0, com alguns aperfeiçoamentos… e novos “bugs”.

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