Lições de inovação do Vale do Silício

Vale do Silício - São Francisco

O relógio marcava 9h. Era uma segunda-feira de fim de verão no hemisfério norte, mas o frio e a névoa características tomavam conta de São Francisco, uma das cidades mais importantes da Califórnia (EUA) e ponto de partida para quem deseja explorar a meca da inovação no mundo: o Vale do Silício.

Em um hotel no centro da cidade, nossa equipe se juntou a um grupo de empresários ansiosos para aprender com gigantes da tecnologia como Facebook e Salesforce, conhecer iniciativas empreendedoras de startups brasileiras e trocar ideias com empresários que tinham o mesmo objetivo: vivenciar e absorver a atmosfera do Vale. Tinha início mais uma Missão de Negócio ao Vale do Silício, uma maratona de quatro dias que transformaria todos os participantes e que é a base desta reportagem.

Vale do Silício - Universidade de Stanford

A realidade do Vale do Silício

O Vale do Silício é um ambiente que inspira e transpira inovação, networking, cooperação, competitividade, cifras milionárias e muito suor. Longe do glamour das notícias de aportes milionários em startups, escritórios coloridos e jovens revolucionários, a realidade é mais dura do que pode parecer. Em um ambiente em que a inovação é uma commodity, não há tempo a perder.

Lição 1 Foco acima de tudo

Foi fácil perceber que o foco é como um mantra para os empreendedores do Vale – e por “empreendedores” estamos nos referindo a fundadores de empresas e funcionários. Profissionais sem essa visão não se criam por lá.

Leandro Scalise Gomes, brasileiro sócio da Rank My App, startup focada em ajudar empresas a aumentar o número de downloads de seus aplicativos, é prova disso. Enquanto ele batalha em São Francisco para captar investidores, parte de sua equipe atua em São Paulo. Em uma espécie de pitch de vendas para o grupo do qual o time VendaMais fazia parte, ao ser questionado sobre se eles não estariam perdendo oportunidades por não estenderem a atuação da empresa para outras plataformas além de aplicativos, visto que a solução deles é robusta e poderia atender inúmeros mercados, Gomes foi rápido e direto: “Nosso foco é esse. Precisamos ser os melhores nisso.”

Essa declaração traz à tona a regra número um da execução: quanto maior o número de metas que você tentar conciliar de uma só vez, menores serão as probabilidades de alcançá-las. De acordo com os estudos de Chris McChesney, Sean Covey, Jim Huling e Bill Moraes, apresentados no livro As 4 disciplinas da execução – Garanta o foco nas metas crucialmente importantes (tema da reportagem de capa da VendaMais de jul/set 2016), se você tiver entre duas e três metas, poderá executar todas com excelência. A situação muda, contudo, se você definir de quatro a dez metas – nesse caso, a taxa de metas alcançadas com excelência cai para  uma ou duas. As coisas pioram ainda mais quando se tem entre 11 e vinte metas: provavelmente nenhuma será executada com excelência. Ou seja, foque no que é crucialmente importante.

Lição 2 – Prospecção focada no cliente ideal

Outra lição importante dessa empresa que tem clientes como Itaú, Multiplus, Nespresso, Polishop e Catho foi que por mais que um dos objetivos de qualquer startup seja escalar as vendas rapidamente, atirar para todos os lados para obter novos clientes não é a melhor saída. O foco da prospecção da Rank My App são empresas inovadoras que sabem que é importante destacar seus aplicativos e que estão alinhadas à proposta de valor que oferecem. Em outras palavras, o Perfil de Cliente Ideal (PCI) da empresa está muito bem definido.

O grande mito da ideia de um bilhão de dólares

Sua grande ideia não vale nada se a sua capacidade de execução não estiver à altura. São poucos os que se diferenciam na capacidade de execução. Essa é mais uma verdade absoluta enraizada no modo de pensar (e agir) das empresas que estão no Vale do Silício.

Ao contrário de proteger grandes ideias a sete chaves, impera a visão do compartilhamento. Não existe essa de “vou ficar quieto para ninguém roubar minha ideia”. A visão de compartilhar e fazer as conexões necessárias para a execução fluir predominam, muito em razão de haver uma espécie de consciência coletiva a respeito da necessária ligação entre ter uma grande ideia e conseguir executá-la com eficiência e agilidade.

Lição 3 Executar é mais importante do que ter uma grande ideia

Talvez você esteja lendo esta reportagem agora e pensando naquela sua ideia que, cedo ou tarde, vai conquistar o mundo. Há quanto tempo você a tem em mente? O que já fez para tirá-la do papel? A cada dia que passa, sua grande ideia corre o risco de perder relevância por não estar sendo executada. Começar é preciso.

O que qualquer empresa pode aprender com a Netflix (ou: desmistificando a ideia de um bilhão de dólares)

No segundo dia da viagem, fomos até Mountain View, cidade onde fica a sede do Google, visitar a Silicon House, uma empresa brasileira que promove consultoria, programas de imersão, workshops e eventos variados para empreendedores, investidores e interessados em entender melhor a cultura empreendedora do Vale do Silício em um ambiente caseiro e aconchegante.

Em nossa visita, fomos recebidos pela fundadora Andrea Litto, que reside na região desde 1994, e tivemos a oportunidade de conversar com Martin Spier, engenheiro de performance da Netflix, que compartilhou ensinamentos valiosos a respeito da empresa que é referência global em inovação.

A Netflix quebrou paradigmas no mercado não porque um dia seus fundadores Reed Hastings e Marc Randolph tiveram uma grande ideia que revolucionou a forma como as pessoas consomem conteúdo na televisão, mas pela sua cultura de inovação. A empresa foi fundada em 1997 com a proposta de alugar DVDs via internet. A ideia surgiu após Hastings ter tido que pagar 40 dólares de multa à Blockbuster por conta de um atraso na devolução de um filme.

Esse exemplo, aliás, ilustra bem a origem por trás de muitos dos negócios bilionários do Vale do Silício: o foco está em resolver problemas, não em criar produtos. A Netflix é um perfeito resumo do que é, na prática, a cultura empreendedora do Vale: organizada, objetiva, rápida, solucionadora de problemas.

A empresa não acredita na ideia de um bilhão de dólares que vai surgir da noite para o dia e revolucionar o planeta, mas em pequenas melhorias diárias baseadas em decisões e ações rápidas, mesmo que sutis, mas que, com o passar do tempo, fazem com que a empresa possa permanecer relevante e competitiva em um dos mercados mais dinâmicos do planeta. A inovação faz parte do dia a dia. Não é um ato isolado. Prova disso é como a empresa surgiu, há 18 anos, e o que ela é hoje. Mas não é por isso que as inovações são desordenadas ou mal-planejadas. Pelo contrário.

Lição 4 Nunca tome decisões baseadas em instinto

Um dos lemas da casa é inspirado em uma frase de W. Edward Deming (1900-1993), um consultor em gestão empresarial que, dentre outros feitos, teve grande relevância no desenvolvimento da economia do Japão pós-Segunda Guerra Mundial. “Em Deus, eu acredito; todos os outros devem apresentar dados e fatos”.

Nada do que é executado na Netflix é baseado no achismo ou em uma ordem que vem de cima. Assim como o palestrante do Content Marketing World Marcus Sheridan  disse aqui, na Netflix nenhuma opinião tem valor – não importa o nível de experiência do profissional – se o argumento não estiver amparado por referências concretas.

As inovações acontecem a partir de análises e estudos profundos. As métricas são a base da empresa para gerar valor.

Spier até brincou que a “Netflix é uma plataforma de coleta de dados de comportamento de usuários que, eventualmente transmite filmes e seriados on-line”.

Profissionais de alta performance + liberdade = inovação e resultados

O modo de pensar e agir da Netflix e das pessoas que lá trabalham é livre. Não existem processos ou regras. Os funcionários têm liberdade para tomar decisões e criar projetos que acreditam que podem ser agentes de inovação. A visão da empresa é de que é melhor perder dinheiro por ver uma ideia não funcionar do que correr o risco de que o concorrente tenha essa ideia antes.

Isso tudo só é possível porque a empresa tem uma preocupação enorme com o recrutamento. Não há espaço para aprendizes no time. Todos os profissionais são de alto nível e muito bem-remunerados. O time é formado por pessoas autogerenciáveis e que sabem o que precisa ser feito. A Netflix não pensa duas vezes antes de contratar excelentes profissionais. Sempre há espaço para as pessoas de alta performance, mesmo quando não há vagas em aberto. O capital humano é muito valorizado.

No Vale do Silício, há uma condição que foge à regra da maioria dos mercados: se normalmente é a empresa que escolhe quem fará parte do seu time, por lá, muitas vezes os candidatos é que acabam escolhendo as empresas em que vão trabalhar.

Lição 5 As pessoas que formam seu time são seu principal ativo

Como funciona seu modelo de recrutamento (e demissão)? Você já parou para pensar se está realmente comprometido em trazer profissionais extraordinários para sua equipe ou se está apenas tapando buracos quando contrata alguém? Não são “apenas” os aportes milionários que fizeram as gigantes do Vale do Silício serem o que são, mas as pessoas que construíram (e constroem) essas empresas dia após dia.

O que você pode aprender com o modelo de gestão da Netflix

1) A Netflix é muito rápida em seu processo de recrutamento e demissão. Se a pessoa tem o perfil, está contratada. Se não se encaixa, eles não pensam duas vezes antes de demitir. No Vale, onde surge boa parte das grandes ideias do mundo, não há tempo a perder. O ritmo é acelerado e a meritocracia impera.

2) A autonomia prevalece. Todos os profissionais do time de 1.200 engenheiros da Netflix têm acesso a dados restritos e têm autonomia até para tirar o site do ar. Isso porque a empresa sabe que todos que ali estão maduros o suficiente para absorver tamanha carga de responsabilidade.

3) A equipe é independente, mas integrada. Enquanto algumas empresas globais de tecnologia têm seus times espalhados pelo mundo, a Netflix concentra todos os seus engenheiros no mesmo prédio, na cidade de Los Gatos, para facilitar os debates e acelerar a velocidade com que as informações circulam e as ideias acontecem.

Vale do Silício - Netflix

4) O conceito de liderança é quase inexistente. Em razão do ambiente focado em dar autonomia a quem faz acontecer, não existem líderes dizendo o que cada um precisa fazer. As pessoas conhecem suas obrigações e, por isso, perde-se pouco tempo com reuniões e debates desnecessários. Isso também se reflete nos horários de trabalho. Os funcionários têm liberdade para cumprir os horários de trabalho da forma que bem entenderem.

5) Há um olhar diferente sobre custos. Um ambiente livre de regras, informal e focado em inovação faz com que vez ou outra um mesmo projeto acabe sendo desenvolvido ao mesmo tempo por diferentes pessoas, o que naturalmente gera um custo desnecessário e tempo perdido. Mas o que poderia ser uma dor de cabeça para boa parte dos gestores do mundo, na Netflix é encarado como ossos do ofício. Em um mercado em que a velocidade da execução é fundamental, a visão da empresa é de que os custos desnecessários causados por ações de melhoria duplicadas fazem parte do jogo. É preferível absorver o custo e assumir o erro em razão da cultura da inovação contínua.

6) A cultura do erro é celebrada. Enquanto muitos têm a visão de que o erro é algo abominável, que deve ser evitado e escondido, na Netflix ele é visto como parte crucial do processo de evolução. Spier falou que eles erram bastante, mas é isso que os faz serem rápidos nas inovações. A visão é: construir, testar, aprender e melhorar. Muito rápido. “A inovação é muito mais importante do que o risco que corremos por não mudar”, disse o engenheiro.

7) Não há espaço para o ego. Todos os integrantes do time de engenharia, por exemplo, têm o mesmo cargo descrito em seu cartão de visitas. Não existem nomes bonitos para impressionar e nem compromisso com rótulos. O que importa é a cultura de inovação e o resultado, claro.

Para pensar 

Nos últimos anos, o Vale do Silício entrou na moda. Muitos o consideram a Disneylândia dos empreendedores. Por mais que tamanha popularidade tenha contribuído para que a visão sobre o que é, de fato, o Vale tenha sido deturpada, a verdade é que fazer uma imersão nessa realidade, ainda tão distante da maioria das empresas brasileiras, foi inspirador.

Pelo pouco que compartilhei aqui, você já pode ter uma ideia, mas os ensinamentos vão além. Durante a viagem, participamos de inúmeras atividades, conhecemos pessoas extraordinárias e tivemos contato com empresas incríveis. Os ensinamentos são para a vida toda.

O futuro acontecendo

Durante a viagem participamos ainda de um evento de networking segmentado para o mercado sul-americano organizado pela gigante Zendesk; descobrimos que algumas empresas brasileiras estão enviando pequenos times de T.I. para tocar seus projetos em aceleradoras de startups com acesso a uma poderosa rede de contatos; visitamos a impressionante sede da Salesforce, onde fomos recebidos por um brasileiro que integra o time comercial da empresa; fizemos um tour pelos corredores do Facebook, onde também fomos recebidos por uma brasileira que faz parte da equipe de big data da rede social e conversamos longamente sobre mídias sociais e tendências no comportamento humano; e tivemos diversos bate-papos enriquecedores com empreendedores brasileiros e americanos.

Vale do Silício - Facebook

Toda viagem nos muda (e molda). E quando a viagem é uma imersão profissional não se volta dela sem a mente transformada e amadurecida. Que viagem mudou sua carreira?

Saiba mais

A Missão Internacional de Negócios ao Vale do Silício é organizada pela BWI Participações, comandada por André Bianchi e Joyce Bianchi. São diversos grupos por ano. Para obter mais informações, ligue para (11) 942-300-438, escreva para [email protected] ou acesse bit.ly/missaovale.

Esta reportagem foi publicada originalmente na VendaMais de janeiro/fevereiro de 2017

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